segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Igreja Universal é acusada de esconder compra de jornal


 venda de um dos principais veículos de imprensa de Minas Gerais - o jornal "Hoje em Dia", publicado na capital mineira pela editora Ediminas - está no centro de uma polêmica entre a deputada federal Maria Lúcia Cardoso (PMDB-MG) e a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd).

Em processo de separação litigiosa com o ex-governador do estado Newton Cardoso (PMDB), a deputada quer seu quinhão no negócio, fechado pelo ex-marido com um suposto representante da Universal.

Em ação que tramita na 28 ª Vara Cível da Justiça mineira, Maria Lúcia cobra da Universal o contrato de compra e venda da empresa, com o objetivo de incluir o valor pago na partilha de bens. Como prova da transação, apresenta uma nota promissória que teria sido emitida por um suposto emissário de Edir Macedo. Mas a Universal nega a compra, embora mantenha, há anos, seus bispos no comando do diário.

O título de crédito é o segundo de uma série de sete, que teriam sido usados na compra do jornal, antes controlado por Newton. Foi emitida em 7 de dezembro de 1993, no valor de US$ 500 mil, em favor da Panka Espace S/A, uma off-shore sediada em Fribourg (Suíça) e que, segundo os advogados da deputada, é usada pelo ex-governador para ocultar seu bilionário patrimônio. Nas contas da equipe, o valor do negócio, atualizado, seria de ao menos R$ 20 milhões. Um suposto integrante da igreja assina a promissória, mas não é identificado no documento.

Nos autos, a Universal alega que jamais comprou a editora ou teve qualquer relação com ela, sendo, portanto, parte ilegítima na ação. Afirma ainda que não reconhece a autenticidade da nota e não sabe quem seria o autor da assinatura. Mas, em despacho de 21 de agosto, a juíza Iandária Peixoto Nogueira mandou que a igreja apontasse o signatário. Além disso, expediu ofício ao Banco Central requisitando informações sobre a off-shore, já que há indícios de evasão de divisas e outros crimes financeiros. Não há registro da empresa no Departamento de Monitoramento do Sistema Financeiro e Gestão de Informação do BC, tampouco de suas movimentações de dinheiro. 

Diretor de editora Ediminas é representante da Universal

A editora Ediminas é, desde 1987, uma sociedade anônima. E tem como diretor-presidente o bispo Walcysneu Carlos Macedo de Oliveira, fiel representante da Universal. Em agosto do ano passado, ele defendeu os pontos de vista da igreja em audiência pública sobre aborto de fetos anencéfalos no Supremo Tribunal Federal (STF). Nas eleições de 2006, chegou a registrar candidatura a deputado estadual do Rio pelo PRB, partido integrado por pastores da Universal, mas desistiu de concorrer. E doou R$ 6 mil para a campanha do senador Marcelo Crivella, da Universal.

Antes dele, dirigiam a Ediminas os bispos Reinaldo Gilli e Jerônimo Alves, um dos dez réus, ao lado de Edir Macedo, em ação movida pelo Ministério Público de São Paulo por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. A editora roda, em BH, a "Folha Universal", jornal da Universal. Em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), uma das peças do processo aparece como a terceira beneficiária de transferências eletrônicas feitas pela igreja.

Igreja Universal não se manifesta sobre venda

Procurada, a Universal não se manifestou. O advogado que assina a ação, Luís Eduardo Alves Pifano, não foi localizado. Na Catedral da Universal em Belo Horizonte, a pessoa que atendeu o telefone não transferiu a ligação para os administradores.

Na Ediminas, responsável pelo "Hoje em Dia", a secretária do bispo Walcysneu disse que transmitiria o recado, mas não houve retorno. Também não houve resposta ao e-mail enviado. No jornal, o diretor de redação, Carlos Lindenberg, e o diretor-presidente, o bispo Walcysneu, não foram localizados.

No livro "Trajetória de um empreendedor", Newton Cardoso conta que vendeu o jornal para um grupo evangélico, sem dizer qual: "Vendi o controle acionário da Ediminas S/A para um grupo evangélico, e não me arrependo", conta na página 196.

A ação de exposição de documentos é a única, no pacote da separação de Newton e Maria Lúcia, que não corre em segredo de Justiça. A briga nos tribunais começou após a deputada denunciar o ex-marido por agressão. Ela sustenta que Newton tem fazendas, aviões, dezenas de carros e imóveis, entre eles um hotel em Paris. Também seria dono de 16 empresas no país e seis em paraísos fiscais. O patrimônio está avaliado, segundo os advogados da deputada, em R$ 2,5 bilhões. Em resposta, o ex-governador disse ter mais do que foi listado.

As duas partes discutem na Justiça se as ações devem correr em BH ou Brasília, onde foram ajuizadas. Fontes próximas à deputada informam que Newton tem atrasado a pensão alimentícia de R$ 116,5 mil. Procurado, ele não se manifestou. 

Fonte: O Globo online

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