terça-feira, 10 de março de 2009

No lugar do arcebispo de Olinda e Recife (que excomungou) e dos médicos (que abortaram) , o que voçê faria ?


Os escatomaníacos (omissos premeditados) que me desculpem, os dualistas (pseudo-espirituais) também, mas não posso deixar de trazer à baila um assunto “secular”, “do mundo”, como dizem, para que seja refletido pelos líderes, superintendentes, professores e pais cristãos que lêem este blog. Trata-se do “aborto legal” recentemente realizado no estado de Pernambuco. Chorei ao assistir, ontem à noite, a notícia de que uma criança de apenas 9 anos (33 quilos e 1,36 metros), teve sua gravidez (de gêmeos) interrompida por um aborto realizado com a autorização da família. A menina foi vítima do próprio padrasto (um homem de 23 anos) que, desde que a criança tinha 6 anos, abusava dela e de sua irmã mais velha — uma adolescente de 14 anos — que é deficiente mental.

É impossível ficar inerte diante da cena. Uma criança que estava gerando outras duas, sobre uma mesa de cirurgia (enquanto podia estar brincando de bonecas ou casinha), não para dar à luz, mas para sofrer a interrupção de uma gravidez fruto de um estupro doméstico. Mal o caso foi noticiado, apareceu um outro no extremo sul do país, envolvendo uma menina de 11 anos que também está grávida do padrasto.

Todos sabemos que desde a Queda as coisas não andam bem deste lado do céu e, infelizmente, é fato que crimes hediondos como este acontecem aos montes por todo o país (alguns com o consentimento da própria mãe!). Os que se tornam públicos são apenas aqueles em que não existe mais nenhuma possibilidade de esconder a situação. Diante da atrocidade outra questão surgiu, e ela serve para tornar a religião (especialmente a cristã), ainda mais odiada pelas pessoas: a decisão do arcebispo de Olinda e Recife, José Cardoso Sobrinho, de excomungar os parentes da menina e a equipe médica que realizou o aborto. O assunto virou motivo de polêmica e discórdia em diversas partes do mundo, e foi noticiado pela BBC, Fox News, The New York Times e Karachi News (este último inusitado por ser do Paquistão).

Coincidentemente, a edição deste mês do Mensageiro da Paz, órgão oficial das Assembléias de Deus no Brasil, fechada às 17h do dia 17 de fevereiro, traz um artigo da estadunidense Rebecca Kiessling, intitulado “Diga ‘não’ ao aborto por estupro”. Ela, que nasceu de um estupro, defende que em hipótese alguma a prática do aborto se justifica, ou seja, o fato de o feto ser fruto de violência sexual não o torna algo descartável:

Sou muita grata por minha vida ter sido poupada, mas muitos cristãos bem intencionados me dizem coisas como: “Olha, Deus realmente quis que você nascesse”. E outros podem dizer: “Era mesmo pra você estar aqui”. Mas sei que Deus quer que toda criança tenha a mesma oportunidade de nascer e não posso me conformar e simplesmente dizer: “Bem, pelo menos a minha vida foi poupada. Ou: “Mereci. Veja o que eu fiz com a minha vida”. E as outras milhões de crianças não mereciam?

Entre tantos outros argumentos utilizados pela escritora e ativista pró-vida nos EUA, um chamou-me a atenção, pelo simples fato de que, por mais doloroso que este ato criminoso, desumano e humanamente imperdoável seja, o seu resultado conceptivo é uma concessão divina, pois a fecundação do óvulo feminino pelo espermatozóide masculino, em condições normais, ou não, produz vida, uma dádiva do Eterno, desvirtuada, como todas as demais coisas, por causa da Queda. A autora, que pode falar com conhecimento de causa sobre o assunto, afirma: “Uma das melhores coisas que eu aprendi é que o estuprador não é o meu criador, como algumas pessoas queriam que eu acreditasse”. Se pensarmos apenas no aspecto biológico, o que ela defende é fruto de paixão, fantasia, diletantismo. Entretanto, se pensarmos em termos da essência da vida, de quem a doou à humanidade, faz todo o sentido ela defender a sua existência, repelindo qualquer estigma: “Meu valor e identidade não são determinados por eu ser o ‘resultado de um estupro’, mas por ser uma filha de Deus”. Ela finaliza seu texto dizendo:

E o mais importante é que eu aprendi, poderei ensinar aos meus filhos e ensino aos outros que o seu valor não é medido pelas circunstâncias da sua concepção, seus pais, seus irmãos, seu parceiro, sua casa, suas roupas, sua aparência. De fato, muitos palestrantes motivacionais falam para suas platéias que se elas fizerem algo importante e atingirem certos padrões sociais, então elas também poderão “ser alguém”. Se alguém não atingir significa que não é “alguém” ou que é “ninguém”? Se você quiser realmente saber qual é o seu valor, tudo o que precisa fazer é olhar para a Cruz, pois este é o preço que foi pago pela sua vida! Esse é o valor infinito que Deus colocou na sua vida! Para Ele, você vale muito!

É claro que diante da dor da família que foi vítima dessa barbaridade os argumentos, por mais belos e polidos que sejam, nada significam. Mesmo porque, o caso da mãe de Rebecca só tem em comum com a garotinha de Olinda a brutalidade do estupro, já a hipótese de abortá-la foi aventada por ela, sem, contudo, ter tido condições de consumar seu intento. A menina, sem nenhum poder de decisão sobre si, teve de ser submetida ao traumático ato, sob a alegação médica de que sua vida corria perigo e que, no mínimo, teria problemas em conceber na vida adulta (período normal para o ato de ser mãe).

Este problema, somado a um questionamento que tive de enfrentar há pouco tempo durante uma palestra que proferi para jovens em Minas Gerais, sugere que discutamos como devemos reagir diante de situações em que o exercício da ética cristã precisa ser mais do que retórica. Fui inquirido acerca de qual deveria ser a posição de um biólogo cristão que, no exercício do seu trabalho, tiver que manipular células-tronco embrionárias, uma vez que agora este fato é amparado por lei. Respondi, tal como o arcebispo de Olinda: “A lei de Deus está acima da lei dos homens, todas as vezes que uma lei humana contrariar a lei de Deus estamos desobrigados de observá-la”. E a jovem continuou: “Mas pastor, então eu devo pedir demissão?” Respondi que, mesmo sendo difícil, esta ainda é a melhor alternativa se ela não quisesse pecar diante de Deus.

Ao iniciar este texto com um pedido de “desculpas”, o fiz para que os “guardiães do cumprimento da Bíblia em benefício próprio” tenham coragem de exercer a autocrítica ao menos uma vez na vida e deixem do blá-blá-blá religioso, do verbalismo oco, da escatologia fatalista, da omissão premeditada, da legislação em causa própria, posturas evidenciadas através da citação irrefletida, descabida e papagueada de trechos das Escrituras, e se solidarizem com a dor de milhares de brasileiros que, a despeito de viverem em um país onde o número dos evangélicos ultrapassa os 20 milhões, não constatam nenhuma mudança significativa em suas desgraçadas realidades, pois o evangelho pregado pela maioria deste gigantesco contingente é, no máximo, relevante para o inflacionamento de seus impérios denominacionais.

Diante desse horrendo quadro, pergunto:

1 – Se esta criança fosse filha de um casal membro de uma igreja evangélica, qual deveria ser a postura dos pais? Autorizar o aborto ou não?

2 – Se caso a opção da família fosse pelo sim, qual seria a posição da igreja evangélica em relação a ela? Seria desligada do rol de membros ou haveria uma tolerância por causa da dor?

3 – Se houvesse um de nossos membros entre a equipe médica que, por força do ofício, participasse da interrupção da gravidez, qual seria a atitude da igreja em relação a ele? Seria desligado da comunhão?

4 – Na hipótese de a família ser evangélica e não autorizar o aborto, caso estas crianças viessem a nascer, teríamos maturidade para integrar as três crianças (a mãe-mirim e os filhos) ao convívio normal da igreja, sem estigmatizá-los? Ofereceríamos auxílio psicológico e social à família?

5 – Sendo amparado por lei o aborto por estupro, caso a família, cujo os membros pertencem a uma igreja evangélica, opte por autorizá-lo e seja punida no âmbito eclesiástico, entrando na justiça para ser reintegrada à comunhão, será ainda mais estigmatizada por esse fato?
6 - Se o criminoso ouvir a mensagem da cruz e se converter, terá condições de, após cumprir sua pena, ser reintegrado à comunidade da fé sem ser visto como uma ameaça? (Ano passado, em minha terra natal, o Paraná, um homem reincidiu e, após estuprar uma criança, a assassinou e tentou ocultar o cadáver. Ele ajudava nas atividades da igreja e era amigo da família, elementos utilizados para atrair a criança e assassiná-la barbaramente). Qual o tipo de trabalho que a igreja realiza para estar "certa" que essa pessoa realmente mudou e não está apenas se fingindo para cometer mais uma atrocidade?
PS. Não esqueçam de pensar na resposta a estas questões, após colocarem-se no lugar dos familiares da criança (se fosse sua filha, qual seria a sua atitude), do arcebispo (se o caso fosse com meus parentes, o que eu faria), dos médicos (se algum deles fosse membro da minha família, eu o disciplinaria).
Acredito que devemos pensar acerca deste assunto, pois as amenidades que rondam alguns matizes da blogosfera cristã precisam dar lugar a questões que sejam, de fato, relevantes e urgentes para se responder.

2 comentários:

Faculdade de Teologia disse...

Que doideira meu.

abs.

Anônimo disse...

EM caso de estupro aborto simmmm...e esse maluco do padrasto cadeia até morrer!!!