terça-feira, 31 de março de 2009

A crise da África

Por Daniel Santini 
daniel.santini@folhauniversal.com.br
 

A crise econômica que começou com a falência do mercado imobiliário dos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo em setembro de 2008 agravou a miséria e a fome na África. 

O continente, marcado por um passado de exploração e opressão, há décadas, sofre com a instabilidade política e tem perspectivas sombrias. Em fevereiro, representantes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) reuniram-se na Etiópia para discutir o impacto da crise na região. George Okutho, diretor da OIT no país, saiu do encontro dizendo que os efeitos da crise já são piores que os previstos, que o crescimento está ameaçado e que alguns países com a economia baseada em exportações, como Etiópia, Quênia e Tanzânia devem estar entre os mais afetados. 

O empobrecimento da periferia do mundo agrava conflitos de proporções alarmantes. No Sudão, país vizinho à Etiópia, há um genocídio em curso. Desde 2003 foram mortas mais de 300 mil pessoas na região de Darfur, no oeste do país, de acordo com estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU). Mais de 2,5 milhões fugiram e vivem em campos de refugiados. O conflito começou com ataques de tribos determinadas a chamar a atenção para os problemas da região. Uma reação desproporcional do governo, com apoio de milícias paramilitares, culminou na morte de milhares. 

O drama ganhou proporções ainda maiores após o presidente Omar Hassan Ahmad al-Bashir ser condenado pelo Tribunal Penal Internacional de Haia por crimes contra a humanidade. Ele não só se negou a deixar o poder como, em represália, expulsou todas as organizações não-governamentais (ONGs) que prestavam ajuda aos refugiados. Trabalhos sérios foram comprometidos, como o da associação Médicos Sem Fronteiras (MSF), que chegou a ter cinco funcionários sequestrados. Após a libertação, a direção da ONG anunciou o fim do atendimento devido à "insegurança" no país. 

Além dos conflitos, a África sofre também com doenças. A disseminação do vírus HIV é emblemática. Em meio à subnutrição, o número de mortos por aids é bem maior do que o de países desenvolvidos. A miséria é gritante. O administrador paranaense Samuel de Oliveira, de 27 anos, brasileiro integrante do MSF, conta que, em vez de tomar antiretrovirais, pacientes do Zimbábue trocavam a medicação por comida para a família. É neste contexto que, na semana retrasada, o papa Bento XVI fez campanha contra a camisinha durante uma visita. 

Além da aids, a quantidade de mortes por doenças que são curáveis também choca. Desde janeiro, segundo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 931 pessoas morreram de meningite em uma epidemia que atinge Nigéria, Niger, Burkina Faso e Mali. "É triste demais. Há doenças que já poderiam ter sido erradicadas há muito tempo. 

O sarampo, por exemplo, que no Brasil é uma doença do passado, lá ainda mata muitos. 
Nós temos tecnologia, a indústria de remédios poderia erradicar essas doenças", diz Oliveira.

O administrador brasileiro da MSF também viveu na República Democrática do Congo e, nesta semana, embarca para Serra Leoa, país com pior Índice de Desenvolvimento Humano do planeta. 

Nas viagens, o brasileiro viu situações absurdas. "A gente não pode levar para o lado pessoal senão o lado profissional quebra. 

A história que mais mexeu comigo foi quando nossa base no Congo servia de apoio para as equipes que atuavam em áreas de guerra. 

Os refugiados vinham em nossa direção para escapar. Foi quando uma senhora de uns 76 anos contou que estava trabalhando no campo e foi violentada por vários soldados. 

Ela chegou para gente sem vontade de viver. Dizia 'como isso pode acontecer na minha idade?'", relata o brasileiro.

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