segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Um mundo pronto para os idosos

O envelhecimento da população está fazendo nascer um planeta com lazer, casas mais seguras e muita solidariedade com a velhice

Greice Rodrigues

Se existe alguma certeza quanto ao futuro, é a de que ele será mais velho. Aos poucos, o mundo ao nosso redor terá cada vez mais idosos, resultado de um movimento demográfico no qual a taxa de fecundidade continuará caindo e a expectativa de vida, subindo. Em 2050, o planeta contabilizará dois bilhões de indivíduos com mais de 65 anos. Só no Brasil eles serão mais de 55 milhões. Por seu impacto, este é um daqueles fenômenos que muda a história do ser humano para sempre. Nossas moradias serão diferentes, planejadas para abrigar com segurança e conforto essa população. A medicina se empenhará para criar terapias que lhe proporcione boa saúde. As indústrias do turismo, do lazer e do conhecimento também criarão produtos para que a vida aos 70, 80, 100 anos permaneça divertida.

A transformação rumo a esse mundo mais velho já começou. Muitos prédios e casas começam a ser construídos levando em consideração o fato de que dentro deles haverá alguém com mais de 65 anos. Banheiros com barras de apoio, rampas no lugar de escadas e portas com maçanetas fáceis de serem manuseadas são alguns dos detalhes presentes nas edificações mais modernas. Elas são a primeira mostra da chamada "arquitetura da velhice", uma área emergente dedicada a pensar moradias para idosos. "Os arquitetos devem considerar desde já se estão criando espaço para facilitar a vida das pessoas ou para segregálas", afirma Lilian Osmo, professora de arquitetura e designer da Fundação Armando Álvares Penteado, de São Paulo.

Um exemplo desse modelo de arquitetura pode ser visto no Hiléa, um centro de convivência para pessoas mais velhas localizado em São Paulo. O lugar foi projetado pelo escritório de arquitetura Aflalo & Gasperini e sua construção foi coordenada pela arquiteta Luana Rabesco."Tudo foi pensado para deixar o ambiente o mais funcional possível", diz Luana. Na instituição, o piso é antiderrapante e sem desnível e até os móveis receberam atenção especial.

"Trocamos os sofás por cadeiras com braços", explica a arquiteta. "Eles são um importante apoio na hora de sentar e levantar." Houve o cuidado também na decoração dos ambientes. Muitos, como o salão de beleza e o cinema, têm design antigo para que sirvam como lembrança e ao mesmo tempo referência. Detalhes como esses fazem diferença na vida de indivíduos como a aposentada Elvira Salles, 66 anos. Ela vai ao Hilea para realizar atividades como pintura e dança. Lá, sente-se acolhida e segura. "Posso fazer tudo sozinha", conta. "E não há nada melhor do que a autonomia."

Este, de fato, é o ponto mais importante da nova realidade que está sendo construída para os mais velhos. Sua principal marca deverá ser a garantia de liberdade de ação, de movimentos e de escolha a essa população. Afinal, quando se fala aqui de idosos é preciso tirar da mente aquela imagem antiquada do velhinho de pijama, sentado no sofá em frente à televisão. Nos próximos anos, a velhice perderá de vez este estigma. "É por isso que os serviços voltados para o lazer e programas culturais crescerão", afirma o pesquisador Marcelo Néri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro.

VOLTA NO TEMPO No centro de convivência Hiléa, para idosos, há preocupação com os detalhes. O telefone tem calendário fácil de ser lido. E os ambientes apresentam design antigo para servir como referência e lembrança.
 
 

A força dessa demanda pode ser sentida hoje. Dados do programa Viaja Mais Melhor Idade, criado pelo Ministério do Turismo, mostram que entre agosto de 2007 e outubro deste ano foram vendidos cerca de 190 mil pacotes turísticos. Na CVC, uma das maiores operadoras de viagens do Brasil, do 1,5 milhão de passageiros que embarcaram em viagens aéreas, marítimas e rodoviárias no ano passado, cerca de 30% - ou 450 mil - tinham mais de 65 anos. "Estimamos que neste ano o percentual suba para 35%", afirma Valter Patriani, presidente da empresa.

Esse anseio dos mais velhos pelo que a vida ainda pode apresentar de novo alimentará também a área do intercâmbio cultural, caracterizado por cursos de línguas oferecidos em outros países. No Brasil, a opção desperta interesse crescente. "Só neste ano embarcamos mais de 20 idosos para cursos no Ex-terior", conta Flávio Crusoé, diretor da Bex Intercâmbio, empresa especializada no serviço. O professor Lacordaire Faria, 67 anos, foi um dos que mais desfrutaram da viagem. "Fiquei quatro semanas nos Estados Unidos aperfeiçoando meu inglês", conta.

VITALIDADE A aposentada Elvira, 66 anos, sai de casa todos os dias para realizar atividades que estimulam a imaginação e ajudam a manter afiadas as funções cerebrais. Pintar é uma delas.

EM SÍNTESE:

� Está surgindo a "arquitetura da velhice". Seu objetivo é criar edificações mais seguras e confortáveis para os mais velhos

� Programas de intercâmbios culturais serão uma das opções oferecidas a quem tem mais de 65 anos

� Essa população viajará mais, e os pacotes turísticos dirigidos a ela se multiplicarão

� A medicina está investindo na formação de profissionais que entendam as peculiaridades dos idosos

� Crescem os serviços de apoio aos cuidadores, pessoas responsáveis pelos cuidados com idosos

A sociedade também começa a investir na criação de recursos e tratamentos para assegurar mais saúde a essas pessoas. Nos últimos anos, um dos ramos da medicina que mais experimentaram crescimento foi o associado aos cuidados com os mais velhos. Em São Paulo, por exemplo, tornouse comum ver médicos de outras especialidades freqüentando os seminários da Sociedade Brasileira de Clínica Médica para entender melhor as peculiaridades desse grupo da população. "Esses profissionais estão sendo treinados para identificar problemas comuns entre esse grupo", afirma o médico Abrão Cury, diretor da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.

PASSAPORTE Faria viajou para os Estados Unidos em um programa de intercâmbio

Há ainda um consenso de que é preciso dar atenção especial aos chamados cuidadores, as pessoas que tomarão conta daqueles mais debilitados pela idade. Diversos estudos estão mostrando que esses anjos da velhice precisam de apoio emocional e físico para executar suas tarefas. Caso contrário, elas se tornam pesadas demais. Quando isso acontece, ambos - cuidador e idoso - adoecem. É por isso que começam a surgir cursos de preparo para esses indivíduos, dirigidos a familiares, amigos ou profissionais de saúde como enfermeiros ou fisioterapeutas. Associações de representantes de pacientes também estão organizando espaços nos quais os cuidadores podem partilhar suas experiências, cansaço, culpa e tristeza. É uma forma de tornar o trabalho menos doloroso. E de garantir um mundo melhor a todos.

 

Nenhum comentário: