quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Descaso aos Idosos

Por Andrea Miramontes e Daniel Santini

A poucos metros do Marco Zero de São Paulo, na Praça da Sé, Luiz Farias dos Santos, de 61 anos, espera uma Kombi da prefeitura para seguir para um hospital. Com os dois pés para fora do sapato, as canelas enfaixadas, diz que um bicho verde desceu de uma árvore próxima e o picou. "Dói bastante e agora inchou. Vou ao médico ver, vão me levar", conta. Quando não está falando, a cabeça fica baixa, parece chumbo sobre os cotovelos, estes afundados nos joelhos. Ele tem uma expressão desolada e olhos fundos.

Conta que foi motorista de ônibus e se atrapalhou na hora de pedir a aposentadoria. Até hoje não conseguiu. Acabou na rua. Tem uma mulher e dois filhos, que não vê mais, além dos irmãos. Mantém o mesmo tom ao contar a vida e só no final faz uma exigência: "Se puder, escreve que eu sou palmeirense", diz, arriscando um sorriso rápido, desanimado. O homem que vive nos bancos de praças do Centro de São Paulo é um dos muitos senhores e senhoras que, sem recursos ou perspectivas, acaba abandonado, esquecido.

Em uma sociedade com uma rede de assistência frágil, número insuficiente de hospitais e moradias caras demais, os mais velhos costumam ser os mais atingidos. Mesmo para quem não vive nas ruas, a realidade costuma ser brutal.

Superlotação, falta de cuidados e instalações precárias são comuns nos abrigos para idosos, de acordo com inspeção realizada em 2008 pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). "Diante da ausência de fiscalização e da própria pressão de familiares interessados apenas em se livrar do idoso, temos uma dinâmica objetiva que vai autorizando a formação de toda a sorte de negócios na área", escreveu no relatório final do trabalho a coordenadora de Direitos Humanos do CFP, Ana Luiza Castro. Após fiscalizar 24 instituições de diferentes estados, ela disse ter tido a impressão de que os velhinhos não vivem, somente esperam a morte chegar.

Pois é justamente como "um ritual de morte" que a psicanalista Natália Alves Barbieri define o que a entrada em asilos significa para a terceira idade. Professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, ela passou 8 meses em uma instituição que abriga idosos estudando o tema. "Todos que chegam passam a viver em um sistema regrado, medicamentoso, e mesmo quem está saudável entra no esquema. Isso faz com que as pessoas adoeçam, fiquem dementes e morram", diz. "Muitos vão por conta própria, porque não querem mais dar trabalho à família. Há ainda aqueles que os parentes não têm condições financeiras nem emocional de lidar com a situação e vi também histórias de idosos que maltrataram familiares. Seja qual for o caso, esses lugares estão longe de oferecer as condições ideais de vida. Todos ficam sem perspectiva de futuro" conta.

A morte como única perspectiva é um perigo real. Em 1999, os pesquisadores Flávio Chaimowicz e Dirceu Greco, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, constataram que a maioria dos vovôs não sobrevive mais de 3 anos
nos abrigos.

Juntando latinhas
Jerônimo Neto Barbosa, de 61 anos, mora sozinho em um quarto de pensão e diz que não quer ir para casa dos filhos no Cambuci, bairro de São Paulo, por considerá-la afastada demais. "Eles são legais, pagaram um aluguel na pensão e eu me viro aqui", conforma-se o senhor de unhas mal aparadas e sapato rasgado. "Eu trabalhei muito, fui vigia, fiz limpeza, eu merecia alguma ajuda do Governo. Até tentei, mas tem que ir para lá, para cá, aí eu desisti", diz.

Isolina Vianna também não tem vida fácil. Trata-se de uma senhora simpática, de 76 anos, com grampos prendendo o cabelo e conversa agradável. Dona Isolina, apesar da idade avançada, ainda trabalha e faz o que pode para pagar o quarto em que vive.

A pensão do marido falecido é de R$ 242 e, para sobreviver, ela conta com a solidariedade de vizinhos e bastante jogo de cintura. "O pessoal da floricultura junta latinha para mim; eu junto também e tem um rapaz que me dá almoço para eu ir no banco para ele. Faço depósitos, cuido de documentos. Eu deveria ganhar alguma coisa, mas Deus está vendo", diz a senhora, que não se assusta com a situação e demonstra força e dignidade impressionantes. "Só fica difícil se eu não puder andar mais. Não vou incomodar minha filha à toa. Ela tem cinco filhos e marido, não pode ajudar", resume Isolina.

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