sábado, 31 de janeiro de 2009

Três tipos de blogueiros

DiferenteJá disseram que existem três tipos de escritores. Aqueles que não pensam para escrever; aqueles que pensam enquanto escrevem; e os que pensam para escrever. Creio que essa mesma classificação possa ser aplicada aos blogueiros.

Não há dúvidas de que a melhor espécie de blogueiro é aquele que reflete, lê, pesquisa e pondera sobre o post que haverá de publicar. Aliás, um dos aspectos positivos de se manter um blog é o fato de que ao fazer isso o blogueiro mantém sua mente em atividade constante.

O simples fato de escrever um artigo para publicação leva-nos ao raciocínio. Primeiro por meio da pesquisa e depois no momento do arranjo das idéias e no escalonamento das palavras. Blogar, então, é uma atividade intelectual. Conquanto o pensamento preceda ao post.

A leitura e a escrita são os duas principais atividades intelectuais. James Sire chama-as de hábitos da mente. A leitura abre ao leitor a possibilidade de uma viagem pelo universo do conhecimento, enquanto a escrita lhe proporciona a separação e a sistematização do conhecimento a fim de que outros participem deste mesmo universo.

Por muito tempo a publicação de artigos e ensaios na mídia era privilégio de uma quantidade pequena de pessoas que tinham lugar ao sol. Hoje, porém, qualquer pessoa é um escritorem potencial. A blogosfera proporcionou a qualquer um a possibilidade de tornar-se o seu próprio redator. Assim, não é preciso ser colunista de uma revista ou jornal para que a pessoa dedique-se à escrita. Hoje o blog é a revista e o jornal do seu criador, podendo inclusive servir como uma ferramenta de produção de conhecimento.

Como escreveu Octávio Ordunã (Blogs – Revolucionando os Meios de Comunicação),"Embora seja verdade que nem todos os conteúdos da blogosfera são escritos com esse objetivo, e que apenas alguns blogs conseguem isso, a possibilidade de criar e difundir conhecimento por meio de blogs é real, e há muitas pessoas apostando suas fichas nessa oportunidade". Mas lembre-se, existem três tipos de blogueiros: Aqueles que não pensam para escrever; aqueles que pensam enquanto escrevem; e os que pensam para escrever.

Qual deles você é?

Ps. Por falar nisso, não se esqueça de visitar a UBE.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Estudos mostram impactos de novela nos comportamentos sociais

Famosas há muito por mostrar praias maravilhosas, personagens carismáticos e representações realistas da vida e das aspirações da classe média, as novelas brasileiras ajudaram a moldar as idéias das mulheres sobre divórcio e filhos de maneira crítica, segundo dois estudos recentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Ambos os estudos analisam o papel da televisão e das novelas em influenciar mudanças significativas nas taxas de fertilidade e divórcio no Brasil nas três últimas décadas. As taxas de fertilidade no país caíram mais de 60% desde a década de 1970 e os divórcios aumentaram mais de cinco vezes desde a década de 1980. Durante o mesmo período, a presença de aparelhos de televisão teve uma elevação de mais de dez vezes, estando hoje em mais de 80% das residências.

As descobertas dos dois estudos, Novelas e Fertilidade: Evidências do Brasil, e Televisão e Divórcio: Evidências de Novelas Brasileiras, podem ter implicações importantes para os governos de países em desenvolvimento. As autoridades desses países com freqüência têm dificuldade para educar a população em questões sociais e de saúde pública fundamentais devido à alta taxa de analfabetismo e aos níveis limitados de circulação de jornais e de acesso à internet.

"A televisão desempenha um papel crucial na circulação de idéias, em particular em nações em desenvolvimento com uma forte tradição oral, como o Brasil," disse o economista do BID Alberto Chong, um dos autores dos estudos. "Os artigos sugerem que alguns programas de televisão podem ser uma ferramenta para transmitir mensagens sociais muito importantes que ajudem, por exemplo, a lutar contra a disseminação da epidemia de Aids e promover a proteção dos direitos de minorias."

Os dois estudos centram-se na expansão da Rede Globo, o maior grupo de mídia do Brasil e a quarta maior rede de televisão comercial do mundo. A Globo tem ampla cobertura nacional: suas transmissões foram expandidas para 98% dos municípios do país na década de 1990, atingindo 17,9 milhões de residências, em comparação com praticamente zero em meados da década de 1960.

A rápida expansão da Globo durante esses anos e a mudança acentuada de alguns indicadores sociais brasileiros oferecem um campo fértil para pesquisas. Os estudos realizam uma série de testes econométricos com resultados estatísticos consistentes. Utilizam dados demográficos amplos e informações detalhadas sobre a expansão da cobertura dos sinais de televisão e sobre o conteúdo das novelas no Brasil nas três últimas décadas.

Impacto da televisão

Os estudos mostram que a televisão teve um papel importante na influência das percepções das mulheres sobre casamento e família de 1970 a 1991, ao lado de outros fatores bem estudados como aumento dos níveis de instrução e do acesso a contracepção e algumas políticas governamentais.

O primeiro estudo encontrou que as taxas de fertilidade, ou o número de nascidos vivos por mulher em idade reprodutiva, foram significativamente mais baixas em áreas do Brasil alcançadas pelo sinal da rede Globo do que em áreas que não recebiam o sinal.

O impacto sobre o comportamento foi mais forte entre mulheres de famílias pobres e mulheres no meio ou no final de seus anos reprodutivos, sugerindo que a televisão influenciou a decisão de parar de ter filhos, e não de quando deveriam começar a ter filhos.

Em geral, a probabilidade de uma mulher ter um filho em áreas cobertas pelo sinal da Globo caiu 0,6 ponto percentual a mais do que em áreas sem cobertura. A magnitude do efeito é comparável à de um aumento de 2 anos no nível de escolaridade das mulheres. Não houve impacto nas taxas de fertilidade no ano anterior à entrada do sinal da Globo. A exposição constante às famílias menores e menos oneradas que aparecem na televisão pode ter criado uma preferência por ter menos filhos, disse Chong.

A pesquisa de Chong sobre fertilidade e televisão também revelou um impacto relacionado sobre a taxa de divórcios. Embora os dados de apoio não fossem tão amplos, Chong encontrou que a porcentagem de mulheres separadas ou divorciadas também é maior em áreas que recebem o sinal da Globo, em particular em pequenas comunidades em que uma alta proporção da população tem acesso às transmissões da emissora. Essas áreas apresentaram um aumento de 0,1 a 0,2 ponto percentual na porcentagem de mulheres de 15 a 49 anos que são divorciadas ou separadas. O aumento é pequeno, mas estatisticamente significativo, de acordo com Chong.

O impacto é comparável a um aumento de 6 meses no nível de instrução de uma mulher, o que é um efeito muito significativo quando se leva em conta que a escolaridade média das mulheres no período era de 3,2 anos.

Influência das novelas

Sessenta a oitenta milhões de brasileiros assistem regularmente a novelas noturnas em português. A Globo domina a produção nacional de novelas, as quais geralmente mostram um modelo de família muito específica: pequena, atraente, branca, saudável, urbana, de classe média ou alta e consumista.

O cenário, na maioria das vezes, são as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em geral, as famílias mais felizes nas novelas são pequenas e ricas, enquanto as famílias mais infelizes são mais pobres e com mais filhos.

Os estudos analisaram o conteúdo de 115 novelas transmitidas pela Globo entre 1965 e 1999 nos dois horários de maior audiência: 19 e 20 horas. Sessenta e dois por cento das principais personagens femininas não tinham filhos e 21% tinham apenas um filho. Vinte e seis por cento das protagonistas femininas eram infiéis a seus parceiros.

Os enredos das novelas com freqüência incluem críticas a valores tradicionais. Por exemplo, o sucesso de 1988 da rede, a novela Vale Tudo, apresentava uma protagonista que era capaz de roubar, mentir e enganar a fim de alcançar o seu objetivo de ficar rica a qualquer custo. A Globo também trouxe para a tela estilos de vida modernos e emancipação feminina em novelas como Dancing Days, transmitida em 1978, em que a protagonista feminina era uma ex-presidiária lutando para reconstruir sua reputação e recuperar o amor de sua filha adolescente.

A redução das taxas de fertilidade foi maior em anos imediatamente seguintes à exibição de novelas que incluíam casos de ascensão social, e para mulheres com idades mais próximas da idade da protagonista feminina da novela.

As novelas também influenciaram a escolha dos nomes dos filhos. A probabilidade de que os 20 nomes mais populares em uma determinada área incluíssem um ou mais nomes de personagens de uma novela exibida naquele ano foi de 33% se a região recebesse o sinal da Globo. Em regiões sem acesso à Globo, a probabilidade foi de apenas 8,5%.

"Há ainda indicações sugestivas de que o conteúdo das novelas tenha influenciado também as taxas de divórcio", de acordo com Chong. "Quando a protagonista feminina de uma novela era divorciada ou não era casada, a taxa de divórcio aumentava, em média, 0,1 ponto percentual."

Globo versus SBT

A expansão do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), a segunda maior rede de televisão do Brasil, não afetou as taxas de fertilidade no país durante o mesmo período.

Os estudos atribuem esse resultado a diferenças de conteúdo. As novelas da Globo são escritas por autores brasileiros e produzidas no Brasil, enquanto a maioria das novelas do SBT é importada do México, ou usa enredos importados.

"Para afetarem o comportamento, os programas têm que ser percebidos como representações realistas da sociedade brasileira", disse Chong. "O público consegue se identificar facilmente com as situações apresentadas nas novelas da Globo."

As novelas da Globo também têm produção muito mais cara do que as produzidas no México ou em outros países latino-americanos. A Globo gasta em média cerca de US$ 125.000 por capítulo de novela, ou cerca de 15 vezes mais do que qualquer rede da América Latina.

Além disso, as novelas da Globo são filmadas em locais facilmente reconhecíveis e mostram um ambiente de classe média típica que a maioria dos espectadores pode identificar, qualquer que seja a sua situação socioeconômica.

Serviço:

Eliana Ferrara, economista da Bocconi University, foi co-autora do artigo sobre divórcio, junto com Chong. A economista do BID Suzanne Duryea foi co-autora do estudo sobre fertilidade, com Chong e Ferrara.

Fonte: Canal Executivo

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O lado oculto das Testemunhas de Jeová

Segredos de pedofilia numa religião americana – Testemunhas de Jeová em crise é o título de um polêmico CD lançado nos Estados Unidos que mostra casos de abuso sexual praticado contra crianças por adeptos e dirigentes da Sociedade Torre de Vigia. O álbum, organizado por Barbara Anderson, reúne cerca de 5 mil páginas de denúncias contra integrantes do movimento Testemunhas de Jeová (TJ).

O CD mostra como os crimes são acobertadas pelo Corpo Dirigente da Sociedade Torre de Vigia a fim de evitar que os pedófilos sejam punidos pela lei. Em muitos casos, os autores dos abusos continuam nos seus cargos de liderança, como anciãos ou servos ministeriais, ou no máximo recebem uma punição interna, como a perda do posto durante algum tempo.

Barbara Anderson apresenta 12 casos que tramitaram na Justiça americana desde 1999, mas revela que muitos acordos extrajudiciais foram feitos em décadas anteriores. De acordo com o conteúdo do CD, os acordos entre as vítimas e a Sociedade Torre de Vigia são propostos pelos advogados dos TJ como forma de abafar os casos e impedir a exposição negativa da organização religiosa perante a sociedade.

O trabalho relata minuciosamente nove casos em que foram feitos acordos no início de 2007, envolvendo 16 vítimas e oito molestadores. Esses processos foram abertos entre 2003 e 2006 por um escritório de advocacia em Fort Worth, Texas. Os réus principais são uma congregação TJ do Oregon, outra do Texas, sete da Califórnia e a própria Sociedade Torre de Vigia de Nova Iorque, a sede mundial da denominação.

Os casos fazem lembrar o escândalo dos padres americanos pedófilos, que veio à tona em 2002. A diferença é que, ao contrário dos clérigos católicos, os dirigentes TJ envolvidos em crimes sexuais preferiram fazer secretamente acordos individuais. Todos os casos foram encerrados sem direito a apelação. "Usualmente, esse tipo de acordo indica aporte financeiro por parte dos réus", avalia Barbara Anderson. Segundo o CD, as crianças molestadas haviam sido abrigadas ou recebiam ajuda material dos TJ, o que facilitou o contato com os abusadores.

Fonte: Cristianismo Hoje


Mara Maravilha após 3 meses de divórcio vai casar novamente

De acordo com matéria exibida pelo programa A Tarde É Sua, da RedeTV!, nesta segunda-feira (26), quatro meses depois de assinar os papéis de seu divórcio, a cantora gospel está noiva. O escolhido seria o dentista Alessander.

Mara que foi flagrada ao lado do dentista em um desfile de noivas em São Paulo, apesar de não querer falar muito no fato, confirmou o noivado.

A cantora gospel foi casada durante nove anos com Paulo Lima. Os dois ficaram dois anos separados, antes de assinar a separação, em outubro de 2008.

Na época, Mara não quis falar sobre o ocorrido, dizendo estar em um momento delicado. Mas, parece que o coração da ex-apresentadora infantil está mais do que recuperado.

Fonte: Verdes Mares

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

BARACK ABORTO OBAMA

Valmir Nascimento

Nem bem o trono presidencial da Casa Branca elevou o seu teor térmico com as nádegas do seu novo proprietário, o rei da mídia e presidente dos Estados Unidos Barack Obama, o mundo percebeu as primeiras pitadas da ideologia que norteará as decisões do atual governo americano. Depois de ter começado mal,  já no terceiro dia como o homem mais influente do mundo Obama revogou o bloqueio de verbas públicas direcionadas às organizações pró-aborto, eufemisticamente denominadas de organizações de planejamento familiar.

Segundo notícia, "em um comunicado divulgado no mesmo dia, Obama disse estar "determinado a proteger a liberdade das mulheres a escolher" entre ter ou não um bebê. Para o presidente, o 22 de janeiro lembra aos americanos "que esta decisão não apenas protege a saúde das mulheres e a liberdade reprodutiva, mas também simboliza um princípio maior: que o governo não vai se meter em assuntos familiares íntimos". Obama reconheceu que o aborto é um "tema sensível, que nos divide", mas afirmou que "qualquer que seja nosso ponto de vista, estamos unidos em nossa vontade de evitar a gravidez não desejada, de reduzir o número de abortos e de apoiar as mulheres e as famílias na decisão que tomarem".

Para quem ainda tinha dúvidas sobre o perfil de Obama e sobre como ele conduzirá a presidencia dos EUA, essa notícia demostra cabalmente como se comportará daqui para frente, a começar, é claro, com a morte dos nascituros. Mas, somente bobos esquizofrênicos não sabiam que Barack agiria dessa forma, afinal ele nunca escondeu a sua visão sobre o assunto, como defensor do aborto e da liberdade de escolha por parte da mulher.

Onde estão os cristãos defensores de Obama?Obamamania

Gostaria de ouvir as repostas dos fãs do mulato-bonitinho-político, os quais pensavam que poderiam votar em um defensor do aborto sem que isso pudesse atingir a verdades centrais da fé cristã, notadamente no que se refere ao valor da vida humana.

Gostaria, agora, de ver a cara de alguns cristãos, evangélicos incluvise, que engrossaram o coro de apoio ao "primeiro presidente negro dos EUA".

Gostaria de ver a manifestação daqueles que levantaram bandeiras, assopraram assovios e fizeram doações em prol de Obama e pensavam que a fé cristã poderia estar divorciada da vida pública. Ah, como eu gostaria…

Digo isso, pois, durante a campanha presidencial tive que ouvir e ler indigestos crentes insuflados pela Obamamania, tudo em nome do ineditismo de um negro poder tornar-se o primeiro presidente americano, como uma espécie de Martin Luther King dos tempos atuais, sem contanto, considerar sua cosmovisão, vida privada e capacidade administrativa.

Aliás, como postei aqui no blog, e que tem gerado grande debate, lembremos do livro escrito em homenagem a Obama com o título "O Deus de Barack Obama" onde ele é descrito como a nova "estrela" da política americana, o "rosto" do futuro do partido democrata, cuja fé religiosa é o combustível de tudo que ele conquistou e fonte de grandes desafios em busca da presidência".

Como é que é? A sua fé religiosa é o combustível de tudo que ele conquistou e fonte de grandes desafios em busca da presidência? Só se for uma fé anti-bíblica, já que a Palavra de Deus não nos aconselha a matar crianças.

Ateus, graças a Deus.

Inspirados no movimento britânico, Alfredo Spinola (à esq.), Mauricio Palazzuoli (centro) e Daniel Sottomaior criaram com outros companheiros uma associação de ateus e agnósticos brasileiros para garantir visibilidade e pedir respeito a quem não acredita em divindades.

Quando a roteirista inglesa Ariane Sherine, 28 anos, leu em um site evangélico que "quem rejeita o nome de Jesus passará toda a eternidade em tormento no inferno", ela ficou incomodada. Ateia, a jovem resolveu conclamar os sem-fé a se engajar em uma contrapropaganda e criou o slogan: "Deus provavelmente não existe. Agora, pare de se preocupar e aproveite a vida." A iniciativa fez sucesso. A British Humanist Association (BHA) - organização britânica que defende uma filosofia humanista baseada na razão se ofereceu para arrecadar dinheiro e divulgar a frase em lugares públicos de Londres.

A meta inicial, juntar 5,5 mil libras (R$ 17,9 mil), foi alcançada nas primeiras duas horas após a divulgação da campanha. "Atingimos um ponto nevrálgico", disse à ISTOÉ Hanne Stinson, diretora-executiva da BHA, que já arrecadou mais de 140 mil libras (R$ 455,1 mil), o bastante para financiar anúncios no metrô de Londres e em 800 ônibus no Reino Unido. Tudo indica que os milhões de ateus espalhados pelo mundo cansaram de ouvir sentenças condenatórias e, de fato, estão ganhando espaço. No Brasil, o fenômeno se repete. Acaba de ser criada a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), para dar visibilidade e pedir respeito a quem não tem fé.

A Atea começou a arrecadar dinheiro para uma campanha em São Paulo, semelhante à dos ingleses. Segundo o presidente da associação, o engenheiro civil paulistano Daniel Sottomaior, 37 anos, a intenção é garantir consideração social aos descrentes e aumentar sua autoestima. "Muitos têm vergonha de se declarar ateus por causa da rejeição", afirma. Com pouco mais de um mês, a organização conta com 160 membros - mas alguns são agnósticos, ou seja, têm dúvidas sobre a existência de Deus. No censo de 2000, 7% da população brasileira declarou não ter religião. Dentro desse grupo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não especifica quais são ateus. Um dos objetivos da Atea é justamente solicitar ao IBGE que conte o número dos que não acreditam em divindades.

A organização também quer combater o preconceito que os ateus alegam enfrentar. Pesquisas comprovam que a sociedade não tem, de fato, muita simpatia por eles. No ano passado, a Fundação Perseu Abramo perguntou a pessoas de diversas classes sociais a opinião sobre alguns grupos minoritários. Empatados com os usuários de drogas, os ateus vieram em primeiro lugar nos quesitos "repulsa/ódio", despertados em 17% dos entrevistados, e "antipatia", sentida por 25%. "O pior é quando as pessoas achamque, sem os valores da religião, os descrentes se tornariam monstros capazes de tudo, como matar, roubar e violentar", diz a psicóloga paulistana Iara Hunnicutt, 56 anos, agnóstica. De fato, só existem ateus porque antes há uma pressão social para que as pessoas acreditem em Deus.

A estudante de direito carioca Isabela Onofre Mota, 18 anos, assumiu, ainda no ensino fundamental, que não acreditava em Deus. "A diretora chamou minha mãe para uma conversa. E as pessoas me olharam como se eu fosse um ET", lembra ela, oriunda de família católica que já fez peregrinação até em Israel. Há quem tenha perdido o emprego. Em Vitória da Conquista, na Bahia, o professor de biologia Silvestre Teixeira Viana Silva, 26 anos, declarou ser descrente em um debate sobre evolução e criação na escola onde trabalhava. "A diretora me demitiu e falou: onde os alunos vão chegar com um professor ateu?"

Em tese, os descrentes não teriam motivo para tentar convencer os outros de que Deus não existe. Mas, de uns anos para cá, integrantes de um movimento internacional denominado "novo ateísmo" começaram a praticar uma espécie de pregação da descrença. Ou seja, estão quase criando uma religião - diferente, mas com o mesmo objetivo de tentar persuadir as pessoas de uma verdade que julgam ser ideal. Alegam que a fé deve ser combatida por ter consequências perversas para a sociedade e para os indivíduos. Um dos principais expoentes do grupo é o zoólogo evolucionista britânico Richard Dawkins. Depois de publicar em 2006 o best seller Deus: um delírio, ele lançou um movimento mundial incentivando os ateus a sair do armário. Em vários países, há campanhas nesse sentido, endossadas por entidades como a União de Ateus e Livres Pensadores, na Espanha, e a Associação Humanista Americana, dos Estados Unidos. Em alguns lugares, a ideia encontrou resistência. Na católica Itália, a União de Ateus e Agnósticos Racionalistas (UAAR) se organizou para massificar nos ônibus de Gênova o slogan "A má notícia é que Deus não existe. A boa, é que não há necessidade" - mas a concessionária de publicidade nos meios de transporte públicos proibiu a iniciativa. Considerou que a frase não se enquadraria no código de ética da propaganda italiana.

O ativismo ateísta ganhou espaço, claro, também na internet. No site de relacionamentos Orkut, milhares de ateus e agnósticos mostram a cara. Há até uma comunidade virtual só para eles, o Atheist Nexus, com quase seis mil membros. "Os meios de comunicação e, particularmente, a internet abriram espaço para a organização de grupos variados, entre os quais os ateus", diz o sociólogo especialista em religiões Maurício Vieira Martins, professor da Universidade Federal fluminense. Também a literatura multiplica títulos dedicados ao tema. Em Deus não é grande - como a religião envenena tudo, o jornalista britânico Christopher Hit chens atribui à religião algumas das grandes mazelas do planeta. "É violenta, irracional, intolerante, aliada do racismo, do tribalismo e do fanatismo, baseada na ignorância e hostil à livre reflexão, depreciativa das mulheres e coerciva para com as crianças", diz.

Talvez Hitchens exagere, mas o mundo todo assiste, alarmado, a uma guerra no Oriente Médio que tenta ser justificada por discrepâncias religiosas. Não é a primeira vez que isso acontece e, lamentavelmente, não deverá ser a última. Mas são esses extremos que levam muitas pessoas a explicar o ressurgimento do ativismo ateu como reação ao fortalecimento das religiões e do radicalismo da fé. "Ele poderia ser um contraponto ao extremismo que cria sectarismos e guerras", diz a antropóloga Regina Novaes. Para ela, o movimento também ganhou força devido à multiplicação de alternativas religiosas e à maior possibilidade de escolha de uma fé. Mas há também quem entenda que os ateus representem a última das minorias silenciosas numa sociedade em que as liberdades individuais são cada vez mais respeitadas. "Como aconteceu com grupos marginalizados, levamos um tempo para sair da inércia e nos organizar", afirma Sottomaior, da Atea.

Fonte: Revista IstoÉ

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Cristãos latinos dos EUA rejeitam política de Obama sobre aborto

A Coalizão Nacional Latina de Ministros e Líderes Cristãos (Conlamic) rejeitou a decisão do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de liberar o subsídio aos grupos que pratiquem ou ajudem à prática do aborto no exterior.

Em comunicado, a Conlamic, a maior organização de cristãos latinos dos Estados Unidos, qualificou de "alarmante" a direção dada por Obama às políticas estabelecidas pelo ex-líder George W. Bush.

Para a coalizão, a decisão de conceder fundos governamentais aos grupos pró-aborto no exterior representa um "duro golpe à comunidade cristã evangélica latina, e a todos os americanos que acreditam na santidade da vida humana".

"A ordem executiva do presidente Barack Obama dirigirá agora o dinheiro dos impostos para políticas pró-aborto no exterior, apoiando uma cultura de interrupção da vida que é contrária aos valores tradicionais de muitos americanos", disse o reverendo Miguel Rivera, presidente da Conlamic.

A organização cristã denuncia ainda que o presidente Obama executou esta ordem "a portas fechadas e afastado da imprensa, para evitar um revoo midiático e minimizar a resposta política".

"Se esta é a primeira ordem executiva do presidente, os americanos têm razões para temer o que está por vir em relação aos valores tradicionais. Isto terá consequências espirituais para nosso país", afirmou o reverendo Rivera.

O presidente da coalizão ressaltou que os líderes evangélicos hispânicos têm "o maior respeito pelo novo presidente", mas considerou que é sua "obrigação moral" defender "a santidade da vida, que é a base sobre a qual o país foi fundado".

A concessão ou não de fundos governamentais aos grupos pró-aborto no exterior foi um assunto delicado nas últimas administrações, que os autorizaram durante mandatos democratas e proibiram durante os republicanos.

Fonte: EFE

Carro de escola de samba terá fogueira e um papa "queimando" hereges

Um carro alegórico da Porto da Pedra voltou a acirrar os ânimos entre o Carnaval carioca e a Igreja. O Tigre de São Gonçalo trará a fogueira da Inquisição cercada por estátuas que representam um Papa, seis cardeais, oito bispos e quatro hereges.

A alegoria, que faz parte do enredo "Não me proíbam criar, pois preciso curiar! Sou o país do futuro e tenho muito a inventar!" — de Max Lopes —, lembrará cientistas condenados à morte pelo tribunal da Igreja no Renascimento, por contrariar as leis vistas sob a ótica católica. "Não vejo problema. É História e não estou preocupado porque o assunto está carnavalizado. Não é para ofender ninguém", defende-se Max.

Para a Arquidiocese, o carro mereceria a fogueira. "É um assunto delicado para ser usado no contexto do Carnaval. É um abuso, uma agressão à fé. O departamento jurídico já está acostumado a lidar com isso e tomará as medidas cabíveis", ameaça o bispo-auxiliar do Rio, Dom Edney Mattoso.

D. Edney lamenta que o uso da imagem da Igreja tenha se tornado comum para criar "polêmica": "Já está ficando batido procurar fervescência com temas religiosos. Fico perplexo com esse comportamento reprovável".

Religiosos condenam abordagem

Religiosos não aprovam a abordagem da Inquisição no Carnaval. "O assunto é muito complexo e fora de propósito. Não se pode resumir a Igreja naquela época à imagem dos papas e bispos. A Inquisição foi um tribunal político, qualquer interpretação simples não será bem recebida pelas pessoas", avalia o padre Jesus Hortal, reitor da PUC.

Além do contexto histórico, o padre lembrou as vítimas do antigo tribunal. "Não é um tema digno de espetáculo. Tem que se lembrar que a memória de muitas vidas está envolvida e tratar como Carnaval é desumano", lamenta o reitor.

O bispo Dom Roberto Guimarães, responsável pela Diocese de Campos, também condenou a alegoria idealizada por Max Lopes. "Acho totalmente inoportuno. A Igreja cometeu atos reprováveis. Não entendo por que o assunto tem que ser tratado de forma tão leviana", condenou.

A utilização de imagens que representam bispos, cardeais e até mesmo o Papa também foi alvo de críticas. "Como bispo, me sinto ultrajado, agredido e ridicularizado. Não é uma forma honesta de se tratar a História", concluiu Dom Roberto.

Católicos: chance de ação judicial

A caracterização na alegoria da Porto da Pedra também não foi bem recebida pela Diocese de Niterói. O caso já está sendo estudado pelo Departamento Jurídico da Mitra e o monsenhor Valdir Mesquita, vigário-geral da cidade, só se pronunciará após parecer de seus advogados.

No Rio, o Departamento Jurídico da Arquidiocese estuda o que fazer. "Normalmente o diálogo é suficiente. Ainda é preciso analisar o caso com cuidado para aí começar a tomar as medidas, mas qualquer católico que se sinta agredido pode entrar com ação contra a escola", afirma Clodine Dutra, advogada responsável.

No Carnaval do ano passado, a Viradouro precisou modificar, poucos dias antes do desfile, o carro que mostraria o Holocausto nazista. O carnavalesco Paulo Barros havia idealizado a alegoria com um destaque vestido de Hitler sobre esculturas de corpos de judeus mortos. Proibida pela Justiça, a alegoria foi alterada para o desfile.

Fonte: O Dia

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Sede mundial da Renascer é transferida para clube Homs na Avenida Paulista

SÃO PAULO - O apóstolo Estevão Hernandes, fundador da Igreja Renascer em Cristo, anunciou que a igreja transferirá temporariamente sua sede mundial, destruída no desabamento no último domingo, para o Clube Homs, localizado na Avenida Paulista, na região central de São Paulo, e conhecido como um dos "mais sofisticados clubes" da capital.

A Renascer alugou o salão principal do Homs todos os domingos durante os próximos meses, onde serão realizados os grandes cultos da igreja. O valor do contrato, entretanto, não foi divulgado pelas partes. O clube tem capacidade para cerca de mil pessoas. Serão realizados cinco cultos dominicais, sempre às 8h, 10h, 15h, 17h e 19h.

No próximo domingo, quando se completa uma semana da tragédia, o apóstolo Estevão e a bispa Sônia Hernandes entrarão ao vivo em um telão durante o culto diretamente dos Estados Unidos, onde moram, para uma oração especial em homenagem aos nove mortos e 108 feridos no desabamento. Segundo a assessoria da igreja, o casal está bastante abalado pelo ocorrido e promete empenhar todos os esforços no apoio aos fiéis atingidos.

Duas vítimas do acidente que estavam internadas em estado grave deixaram a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital São Paulo ontem. Entre elas está uma menina de 9 anos, que sofreu traumatismo craniano.

Outros quatro feridos também continuam internados no hospital, entre eles uma mulher de 50 anos, que seria submetida durante à noite a uma cirurgia ortopédica. Até ontem, 83 pacientes feridos na tragédia já haviam tido alta.

Fonte: O Globo Online

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Foto sensibiliza contra opressão e exalta coragem para viver na adversidade

Um concurso de fotografias do Fundo das Nações Unidas para a Infância, o "UNICEF-Photo of the Year" realizado em Berlim em dezembro, elegeu como foto do ano o trabalho do jovem fotógrafo belga Smeets Alice que exalta a força interior de uma menina da maior favela da capital do Haiti, Porto Príncipe, que, embora viva num ambiente de sujeira e lixo, está usando um vestido branco limpo com fitas no cabelo, enquanto caminha descalça pela lama.
  
   "A foto vencedora, "Sobrevivendo no Haiti", mostra-nos a coragem e a energia de uma menina que está crescendo face a face com a adversidade. Crianças com esse tipo de pano de fundo de pobreza em sua história geralmente demontram grande força", diz uma das organizadoras do evento, Eva Luise Köhler, que complementou: "A foto do ano do UNICEF é um fundamento para acolher e apoiar estas crianças".
  
   Concorreram este ano 1.450 fotografias de 128 fotógrafos de 31 países. A foto que obteve a segunda colocação foi sobre o terremoto na China e a terceira colocada sobre os efeitos colaterais dos conflitos no Afeganistão. Quem quiser ver estas fotos premiadas e outras 11 menções honrosas deste ano, além de fotos de concursos anteriores, desde 2000, pode fazê-lo aqui.

Elvira Lobato relata investigações sobre a Igreja Universal em livro; leia trecho

Em seu livro "Instinto de Repórter", editado pela Publifolha, a jornalista Elvira Lobato conta detalhes de uma série de reportagens sobre a relação da Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, e duas empresas sediadas em paraísos fiscais. As matérias foram publicadas na Folha a partir de 1999. Um trecho que descreve o início das investigações da repórter está publicado abaixo.

*

A IGREJA UNIVERSAL E OS PARAÍSOS FISCAIS

Em junho de 1999, chegou à redação da Folha, em São Paulo, um pacote de documentos que vinculavam a Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, a duas empresas sediadas em paraísos fiscais: uma nas Ilhas Cayman, no Caribe, e outra na ilha de Jersey, no Canal da Mancha.

Eu tinha voltado a trabalhar na Sucursal do Rio de Janeiro em janeiro de 1997 - após passar cinco anos como repórter em São Paulo -, mas continuava subordinada à sede. Ou seja, respondia diretamente à Secretaria de Redação. Meu chefe, na ocasião, era Josias de Souza.

Numa manhã, ele me ligou para avisar que eu iria receber alguns documentos pelo malote. Disse que desconhecia a procedência deles, pois tinham sido enviados ao jornal em envelope com endereço e nome de remetente falsos, mas que parceria ser "coisa quente". Eu teria o tempo necessário para a investigação e deveria dar atenção exclusiva àquele assunto.

Eram cópias de 75 contratos de empréstimo concedidos a seis integrantes da Igreja Universal do Reino de Deus - Alba Maria Silva da Costa, Claudemir Mendonça de Andrade, José Fernando Passos Costa, José Antônio Alves Xavier, Márcio de Araújo Lima e João Monteiro de Castro dos Santos - por duas empresas sediadas no exterior: Investholding e Cableinvest.

A Investholding, segundo os contratos, tinha como endereço uma caixa postal em George Town (Grand Cayman), enquanto o endereço da Cableinvest era de um escritório de advocacia em Jersey. Completavam o material cópias dos supostos documentos de constituição das duas empresas e dezenas de recibos de uma casa de câmbio uruguaia indicando que a igreja estaria comprando bens e empresas no Brasil com dinheiro trazido dos paraísos fiscais.

Provavelmente era dinheiro proveniente de doações de fiéis que tinha sido mandado para o exterior por doleiros e que retornava para o país como se fosse investimento estrangeiro. Esta é uma forma conhecida de "esquentar" recursos de origem suspeita (como caixa dois e propinas) ou não declarados ao fisco.

Meu desafio era provar a autenticidade dos documentos e mostrar o vínculo entre as empresas e a Igreja Universal. Em condições normais, é praticamente impossível levantar informações sobre empresas sediadas em paraísos fiscais, porque seus acionistas não são identificados nos atos de constituição das companhias. Elas existem apenas no papel e podem mudar de dono de um momento para outro, como se fosse uma ação preferencial ou um cheque ao portador. São firmas criadas por escritórios de advocacia, que têm compromisso de sigilo com os clientes e também não dão informação sobre os proprietários.

Na hipótese de os documentos serem verdadeiros, intuí que teriam sido enviados por alguém que participara diretamente do esquema. Só uma pessoa de confiança do grupo teria acesso ao contrato de constituição das empresas no exterior e aos comprovantes de que o dinheiro entrou no país sem passar pelo Banco Central.

A apuração desse caso levou um mês e exigiu pesquisas no Brasil e no exterior.

COMEÇO DA INVESTIGAÇÃO

Os 75 contratos da Cableinvest e da Investholding referiam-se a empréstimos a pessoas físicas no Brasil. Segundo o denunciante anônimo, 54 empréstimos estavam vinculados à compra da TV Record do Rio de Janeiro. Os demais contratos teriam financiado a compra de emissoras de rádios em outras cidades.

A Igreja Universal do Reino de Deus havia comprado a TV em 1992, em nome de seis fiéis que freqüentavam o templo do bairro da Abolição, na zona norte do Rio de Janeiro. Em dezembro de 1995, a TV Globo exibiu um vídeo gravado pelo ex-pastor Carlos Magno Miranda, no qual apareciam cenas de Edir Macedo ensinando como tomar dinheiro dos fiéis e recolhendo notas, ao lado de outros bispos. O ex-pastor acusou a cúpula da igreja de se apropriar das doações feitas pelos fiéis e de enviar o dinheiro ilegalmente para o exterior por intermédio de doleiros e do Banco de Crédito Metropolitano.

Após a denúncia, a Polícia Federal abriu inquérito para investigar a origem dos recursos usados na compra das emissoras da Rede Record no Rio e em São Paulo e apurar a acusação de remessa ilegal de divisas para o exterior. Simultaneamente, a Receita Federal iniciou uma devassa na contabilidade de todas as empresas ligadas à Universal e nas declarações de seus dirigentes.

A imprensa acompanhava o inquérito policial e também fazia suas investigações. Em janeiro de 1996, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem de Kássia Caldeira sobre a viagem do bispo Honorilton Gonçalves à Colômbia, em 1989, com o suposto objetivo de buscar dinheiro para quitar o pagamento da TV Record de São Paulo, adquirida por Edir Macedo naquele ano.

Em seguida, o jornal O Globo publicou duas reportagens de Elenilce Bottari mostrando que os compradores da TV Record do Rio eram "testas-de-ferro" da Igreja Universal e que não tinham patrimônio nem renda compatíveis com o compromisso que haviam assumido.

O advogado Arthur Lavigne, contratado pela Universal, havia entregado à Polícia Federal as declarações de Imposto de Renda dos seis compradores da Record do Rio, referentes ao ano de 1993, como prova de que eles tinham pago a emissora com empréstimos recebidos das empresas Investholding e Cableinvest, e não com recursos da igreja, como sustentava o ex-pastor Carlos Miranda.

O primeiro passo na minha apuração, depois de pesquisar o material que havia sido publicado três anos antes pela imprensa, foi procurar o delegado Matheus Cândido Martins, que havia presidido o inquérito da Polícia Federal no Rio de Janeiro. As declarações de Imposto de Renda apresentadas pelo advogado Lavigne, em que apareciam os empréstimos da Investholding e da Cableinvest, foram o primeiro indício de que os contratos em poder da Folha eram autênticos.

A Polícia Federal parou as investigações sem comprovar o elo das empresas com a Universal. O vínculo só foi confirmado com a reportagem da Folha, que provocou a abertura de um novo inquérito pela Polícia Federal, desta feita, em São Paulo. Acredito que a ligação entre a igreja e as empresas nos paraísos fiscais jamais seria descoberta se não fosse a denúncia anônima feita à Folha.

Outro passo da apuração foi verificar as informações existentes sobre a emissora na Delegacia Regional do Ministério das Comunicações no Rio de Janeiro. A razão social da TV Record do Rio era Rádio Difusão Ebenezer. Cadastro do Ministério das Comunicações mostrava que até junho de 1996 a emissora pertencia oficialmente ao bispo Nilson do Amaral Fanini (da Primeira Igreja Batista de Niterói) e ao ex-deputado federal Múcio Athayde.

Ou seja, durante quatro anos a Universal mandou na TV sem ser, legalmente, sua proprietária. A venda tinha sido acertada entre as partes, em 1992, mas a legislação sobre radiodifusão no Brasil diz que a transferência de emissoras de TV só tem validade depois de aprovada pelo presidente da República.

*

Nas 21 páginas restantes do capítulo, Elvira descreve a pesquisa de informações em cartórios, a procura pelos sócios compradores da Record, a apuração realizada em São Paulo, o uso da internet para obter mais provas, a viagem ao Uruguai, a entrevista com os envolvidos no caso e as consequências da reportagem. O livro traz ainda as transcrições das matérias publicadas.

Nos outros 10 capítulos do livro, a autora apresenta reportagens sobre casos importantes como a construção, pelas Forças Armadas, de um poço para testes nucleares, na Serra do Cachimbo, o uso de funcionários públicos na eleição de Collor, o caso Banespa, entre outras.

Fonte: BOL

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

ESCOLA DE ATEUS


Charge: Flamir

Educando para a descrença

Valmir Nascimento

Uma série de acontecimentos no mundo moderno evidenciam que os ateus da atualidade estão em polvorosa e com as garras afiadas na tentativa de destruir qualquer tipo de crença em Deus, fé e expressão religiosa. No Reino Unido, recentemente o ativista ateu Richard Dawkins encabeçou campanha publicitária onde a frase “Provavelmente Deus não existe; então, pare de se preocupar e aproveite sua vida” foi estampada em centenas de ônibus. Nos Estados Unidos, o advogado Michel Newdow ingressou com pedido na Suprema Corte a fim de que a expressão “com a ajuda de Deus” fosse suprimida do juramento de posse do Presidente Barack Obama. Graças a Deus o pedido não foi atendido.

Esses e outros fatos comprovam a grande diferença entre o ateísmo moderno e o ateísmo antigo. Se em dias passados os antiteístas (ateus, agnóticos e céticos) não faziam questão de expor abertamente suas idéias, hoje eles defendem suas opiniões ostensivamente, e não poucas vezes com ferrenhos ataques aos cristãos, com declarações preconceituosas e descabidas contra todos aqueles que professam uma religião; tanto é assim que no livro “Deus, um delírio” o mesmo Dawkins declara que “Deus é um delinquente psicótico, inventando por pessoas loucas, iludidas”.

Como acadêmico e homem da ciência, Dawkins escreve como um religioso fanático, deixando de lado os pressupostos cientíticos e partindo para a defesa cega e proselitista da sua forma de ver o mundo. Como bem explicou o também professor de Oxford e ex-ateu Alister McGrath no livro “O delírio de Dawkins”, “tal como um evangelista, Dawkins prega a seus devotos do ódio a Deus, os quais se deliciam com o bombardeio retórico e erguem as mãos, prazenteiros”… “os verdadeiros cientistas rejeitam a fé em Deus! Aleluia!”.

Como anotou Ravi Zacharias, infelizmente o ateísmo está vivo e é mortal. Mais mortal ainda agora com contornos de religiosidade materialista e fanática para quem o homem é o seu próprio Deus e a lógica científica a única forma de revelação. E assim como uma igreja cristã que possui escola dominical para a instrução, ensino, e fortalecimento da fé de todos os seus membros, o ateísmo da atualidade tem buscado também formas de educar as crianças segundo a visão ateísta. Uma dessas idéias acontece no Centro da Comunidade Humanista em Palo Alto, Califórnia, com a escola dominical ateísta. Ali meninos e meninas recebem educação tendo como pressuposto principal a argumentação de que Deus não existe.

Frente a uma escola de ateus tal como essa surgem as seguintes indagações: Como se ensina uma criança para a descrença? Como se educa um menino dizendo que o mundo não possui um Criador e que nós somos simples obra do acaso?

Tais perguntas são necessárias, afinal o ser humano foi criado para crer. Somos naturalmente crédulos, e por várias razões como explica James Sire. Temos razões sociológicas (pais, amigos, sociedade); razões psicológicas (conforto, tranquilidade, significado, esperança); razões religiosas (pastor, líder, igrejas, escrituras); razões filosóficas (uniformidade, coerência, inteireza), etc. É bem verdade que todas essas razões podem ser totalmente desmoronadas de acordo com o ensino que se recebe. Essas razões podem ruir na medida em que argumentos verídicos ou inverídicos são apresentados à pessoa. Mas, como fazer com que um alguém não acredite na existência de Deus ante a razão espiritual? Como se retira de dentro de uma pessoa a certeza de que somos obra de um Criador? Como explicar para a nossa alma que somos fruto do acaso quando ela mesma tem sede do Criador (Sl. 42.2). Como ensinar a alguém que a vida dela não tem sentido ou propósito quando em verdade ela anela pelo Redentor? Nesse caso, simples argumentos educacionais não possuem eficácia.

Assim, ser educado para o ateísmo não é tão somente ilógico mas também anti-natural. A percepção que temos da espiritualidade, fé e da existência de um Deus não é algo criado pela nossa mente, resultado da vida em sociedade ou que isso tenha sido inculcado em nós pelo nossos pais, pelo contrário, são as marcas do Criador na vida de todo ser humano, que foi criado segundo a sua imagem e conforme a sua semelhança (Gn. 1.26).

Carl Sagan, um dos ateus mais conhecidos da história, disse certa vez que “não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar”. Não se sabe ao certo sobre quais tipos de evidências e crenças a que Sagan se refere, mas, num pensamento inverso, podemos dizer o mesmo acerca dos ateus: “Não é possível convencer um descrente de coisa alguma, pois suas descrenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de não acreditar”. Essa necessidade, é claro, não é natural, mas sim criada pelo próprio homem que tenta tirar Deus do cenário e agir conforme seu próprio pensamento. Por esse motivo é que a Bíblia registra: “Diz o tolo no seu coração: não há Deus” (Sl. 53.1).

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Enxaqueca maltrata 3o milhões de brasileiros

Estresse físico e emocional, alimentos e até falta ou excesso de sono podem provocar este mal

MONICA FERREIRA

AGÊNCIA UNIPRESS INTERNACIONAL


No início é só uma dor de cabeça, mas que vai aumentando de intensidade rapidamente. E o que parecia uma simples cefaléia é, na verdade, a enxaqueca, síndrome que deixa o portador com fortes dores durante horas ou até dias.

No Brasil, mais de 30 milhões de pessoas sofrem com o problema – cerca de 20% dos brasileiros apresentam a síndrome, mas apenas 3% encontram tratamento eficaz. E muitas ainda tratam a enxaqueca como uma dor de cabeça prolongada. As mulheres são as mais atingidas, numa proporção de três para cada homem.

A dona-de-casa Sandra Mara Alves, 49 anos, conviveu com a enxaqueca por 10 anos. "As dores eram duas vezes ao dia; muitas vezes duravam dois dias sem parar. Eu me enchia de remédios o dia todo", conta.

Ela lembra a primeira vez que começou a sofrer do problema. "Fui ao gastroenterologista e descobri que as dores eram provenientes dos alimentos que ingeria. O especialista receitou uma dieta; além disso, explicou que era também estresse. Mais tarde me receitou remédios. Ele me orientou a ficar calma e a não comer queijo amarelo, chocolate, amendoim e laranja, porque desencadeavam a enxaqueca."

Sandra sentia mal-estar, tonteira, via luzes, sem contar as dores de cabeça latejantes. "Era horrível. Uma vez me deu uma crise tão forte que eu queria bater com a minha cabeça na parede. Ela não passava de jeito nenhum. A ambulância esteve aqui em casa, me passaram remédios, mas no dia seguinte fui para o hospital ficar no soro", lembra Sandra.

Hoje, livre da enxaqueca, ela diz que mudou totalmente seu estilo de vida. "Procuro não ingerir café, nem refrigerantes, porque ambos têm cafeína que é um veneno, além de provocar o aumento das dores de cabeça. Evitar é melhor", ressalta.


VÁRIAS CAUSAS
O clínico geral Alexandre Feldman explica que a enxaqueca é um desequilíbrio químico no cérebro, envolvendo hormônios e substâncias denominadas peptídeos. Esse desequilíbrio é resultado de uma série de outros desequilíbrios neuroquímicos e hormonais, decorrentes do estilo de vida e dos hábitos do portador da doença, sendo também uma predisposição genética.
Segundo o médico, a conseqüência é uma série de sintomas, que podem ir muito além da dor de cabeça. "Existem casos de crises de enxaqueca em que não se sente dor. Porém, geralmente, a dor de cabeça é o sintoma mais dramático da enxaqueca e sua intensidade, apesar de variável, na maioria dos casos vai de moderada a severa."

O especialista acrescenta que a dor pode ser latejante (pulsátil), em peso, ou uma sensação de "pressão para fora", como se a cabeça fosse explodir. "A localização da dor pode variar de crise para crise; raramente dói no mesmo lugar. Pode, inclusive, ser na região dos dentes, dos seios da face e da nuca, levando a que seja confundida com problemas dentários, de sinusite e de coluna", alerta.

Os principais sintomas da enxaqueca compreendem náuseas (enjôo), vômitos, aversão à claridade, a barulho, a cheiros, hipersensibilidade do couro cabeludo, visão embaçada, irritabilidade, flutuações do humor, ansiedade, depressão (mesmo fora das crises) e lacrimejamento. Um indivíduo não precisa apresentar todos estes sintomas para ter enxaqueca. Normalmente alguns deles estão presentes, em graus variados.

A duração de uma crise de enxaqueca varia, geralmente, de três horas a três dias, sendo seguida por um período variável sem nenhuma dor. Pode ser precedida por alterações do humor (euforia em alguns casos, depressão e irritabilidade em outros) e do apetite (vontade de comer doces ou, então, perda de apetite), visão embaçada, visão dupla, escurecimento da visão (cegueira parcial) de um ou ambos os olhos e sensação de estar vendo pontos brilhantes, como se fossem vaga-lumes. Outros sintomas incluem redução da força muscular de um lado do corpo, formigamentos, tonturas e diarréia. A freqüência é muito variável, podendo ocorrer desde uma vez na vida a até todos os dias.

Para a medicina, Enxaqueca não tem cura
Segundo Feldman, não há cura para o problema. "Não há remédio que cure. Com tratamentos podemos controlar os sintomas, por isso não confunda curar dor de cabeça com curar o desequilíbrio químico que está causando a dor de cabeça e os outros sintomas", esclarece.

O médico salienta ainda que devemos nos perguntar sobre nossos costumes ao chegar em casa. "O que você faz? Está se cuidando? Coloca uma música, desliga a luz, toma banho numa banheira, ou até mesmo no chuveiro? Veja como está seu relacionamento; você perdoa a quem deve perdoar?", pondera o médico.

ALGUMAS DICAS A SEREM SEGUIDAS
Procure não fumar ou ficar perto de quem fuma;
Evite o consumo diário de cafeína (café, refrigerantes, etc.);
Beba bastante água;
Não tome pílula anticoncepcional. Procure métodos sem hormônios;
Não faça reposição hormonal convencional;
Vá dormir mais cedo e não pense que é o mesmo que acordar mais tarde;
Procure acordar todos os dias no mesmo horário;
Não "pule" refeições, especialmente a da manhã;
Exclua o leite de vaca de sua dieta;
Consuma derivados fermentados do leite, como iogurtes naturais e leites fermentados (como o kefir);
Não coma doces em excesso;
Evite o consumo de pães;
Evite o consumo freqüente de massas e, quando consumir, prefira as integrais ou cozidas "al dente";
Evite queijo amarelo; 
Evite chocolate em excesso;
Evite carne de frango, ela pode conter altos teores de antibióticos, hormônios artificiais, entre outros aditivos;
Evite o consumo de produtos industrializados, eles podem conter substâncias desencadeantes;
Procure consumir frutas e verduras de cultivo orgânico.


ARMA CONTRA A ENXAQUECA: DURMA MAIS CEDO
Faça uma experiência que você nunca fez: Vá dormir mais cedo por vários meses. Não precisa acordar mais tarde, nem dormir durante o dia, pois ambas as possibilidades podem desencadear crises de enxaqueca e não geram a mesma produção de melatonina. Ao dormir mais cedo, você aumenta seu número de horas de sono no escuro, mas, para isso, precisa desligar tudo à sua volta, até mesmo a luzinha do telefone ou da TV desligada. Invista em uma boa vedação de sua janela, para que não entre luz de fora. Apague tudo à noite! E para conseguir dormir mais cedo, repense e reprograme todas as suas atividades à noite.

Receita – Vitamina Anti-Enxaqueca
1 banana
1 xícara de iogurte natural integral
1 xícara de água
1 colher de sopa de mel ou rapadura
1 colher de gengibre ralado (propriedades antiinflamatórias comprovadas)
Bata no liquidificador

Dr. Alexandre Feldmam é clínico geral e se dedica ao estudo da dor de cabeça há mais de 20 anos. É autor de mais de sete livros; o mais recente: "Enxaqueca - só tem quem quer"


Descaso aos Idosos

Por Andrea Miramontes e Daniel Santini

A poucos metros do Marco Zero de São Paulo, na Praça da Sé, Luiz Farias dos Santos, de 61 anos, espera uma Kombi da prefeitura para seguir para um hospital. Com os dois pés para fora do sapato, as canelas enfaixadas, diz que um bicho verde desceu de uma árvore próxima e o picou. "Dói bastante e agora inchou. Vou ao médico ver, vão me levar", conta. Quando não está falando, a cabeça fica baixa, parece chumbo sobre os cotovelos, estes afundados nos joelhos. Ele tem uma expressão desolada e olhos fundos.

Conta que foi motorista de ônibus e se atrapalhou na hora de pedir a aposentadoria. Até hoje não conseguiu. Acabou na rua. Tem uma mulher e dois filhos, que não vê mais, além dos irmãos. Mantém o mesmo tom ao contar a vida e só no final faz uma exigência: "Se puder, escreve que eu sou palmeirense", diz, arriscando um sorriso rápido, desanimado. O homem que vive nos bancos de praças do Centro de São Paulo é um dos muitos senhores e senhoras que, sem recursos ou perspectivas, acaba abandonado, esquecido.

Em uma sociedade com uma rede de assistência frágil, número insuficiente de hospitais e moradias caras demais, os mais velhos costumam ser os mais atingidos. Mesmo para quem não vive nas ruas, a realidade costuma ser brutal.

Superlotação, falta de cuidados e instalações precárias são comuns nos abrigos para idosos, de acordo com inspeção realizada em 2008 pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). "Diante da ausência de fiscalização e da própria pressão de familiares interessados apenas em se livrar do idoso, temos uma dinâmica objetiva que vai autorizando a formação de toda a sorte de negócios na área", escreveu no relatório final do trabalho a coordenadora de Direitos Humanos do CFP, Ana Luiza Castro. Após fiscalizar 24 instituições de diferentes estados, ela disse ter tido a impressão de que os velhinhos não vivem, somente esperam a morte chegar.

Pois é justamente como "um ritual de morte" que a psicanalista Natália Alves Barbieri define o que a entrada em asilos significa para a terceira idade. Professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, ela passou 8 meses em uma instituição que abriga idosos estudando o tema. "Todos que chegam passam a viver em um sistema regrado, medicamentoso, e mesmo quem está saudável entra no esquema. Isso faz com que as pessoas adoeçam, fiquem dementes e morram", diz. "Muitos vão por conta própria, porque não querem mais dar trabalho à família. Há ainda aqueles que os parentes não têm condições financeiras nem emocional de lidar com a situação e vi também histórias de idosos que maltrataram familiares. Seja qual for o caso, esses lugares estão longe de oferecer as condições ideais de vida. Todos ficam sem perspectiva de futuro" conta.

A morte como única perspectiva é um perigo real. Em 1999, os pesquisadores Flávio Chaimowicz e Dirceu Greco, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, constataram que a maioria dos vovôs não sobrevive mais de 3 anos
nos abrigos.

Juntando latinhas
Jerônimo Neto Barbosa, de 61 anos, mora sozinho em um quarto de pensão e diz que não quer ir para casa dos filhos no Cambuci, bairro de São Paulo, por considerá-la afastada demais. "Eles são legais, pagaram um aluguel na pensão e eu me viro aqui", conforma-se o senhor de unhas mal aparadas e sapato rasgado. "Eu trabalhei muito, fui vigia, fiz limpeza, eu merecia alguma ajuda do Governo. Até tentei, mas tem que ir para lá, para cá, aí eu desisti", diz.

Isolina Vianna também não tem vida fácil. Trata-se de uma senhora simpática, de 76 anos, com grampos prendendo o cabelo e conversa agradável. Dona Isolina, apesar da idade avançada, ainda trabalha e faz o que pode para pagar o quarto em que vive.

A pensão do marido falecido é de R$ 242 e, para sobreviver, ela conta com a solidariedade de vizinhos e bastante jogo de cintura. "O pessoal da floricultura junta latinha para mim; eu junto também e tem um rapaz que me dá almoço para eu ir no banco para ele. Faço depósitos, cuido de documentos. Eu deveria ganhar alguma coisa, mas Deus está vendo", diz a senhora, que não se assusta com a situação e demonstra força e dignidade impressionantes. "Só fica difícil se eu não puder andar mais. Não vou incomodar minha filha à toa. Ela tem cinco filhos e marido, não pode ajudar", resume Isolina.

Bênçãos de pastores dão tom religioso à posse de Barack Obama

Barack Hussein Obama crê em Deus --ou pelo menos no apoio dos religiosos a seu governo. No discurso de posse de ontem, o presidente dos EUA definiu o país como "nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus --e não crentes" e encerrou sua fala desejando que "a graça de Deus" guie as ações dos norte-americanos.

Antes de falar, porém, assistiu a uma bênção do pastor Rick Warren, polêmico por sua militância contra a união de homossexuais. Depois de discursar, houve outra, a cargo do reverendo Joseph Lowery, antigo colega de igreja de Martin Luther King.

"Obama precisa do aval do país, vai ter dificuldades para passar medidas econômicas com os congressistas republicanos", lembra Roberto Romano, professor de ética e filosofia política na Unicamp. Para Romano, a religião já foi usada como escudo contra a pressão sofrida na campanha, quando Obama era associado à impopular posição pró-aborto.

Kenneth Serbin, professor de história na Universidade de San Diego e autor de "Padres, Celibato e Conflito Social" (Companhia das Letras), acrescenta: "Obama lembra à população a tradição de tolerância, ao mesmo tempo apelando para a unidade nacional. Ele seria uma combinação dessas duas tendências: não vai esconder sua religiosidade vai e usar o discurso público religioso para reanimar o país".

Para Serbin, mais do que as palavras, o tom na cerimônia de ontem foi religioso. "Toda a posse lembra a luta de Luther King, grande pregador. Obama quis levantar o ânimo do povo."

Serbin não vê motivo para preocupação quanto à mistura de política e religião nos EUA: "Ter um Estado laico é justamente o que permite que se utilize o discurso religioso: ninguém tem medo que a religião se apodere do Poder Público".

Antônio Flávio Pierucci, professor de sociologia na USP, acrescenta: "Pode parecer paradoxal, mas a separação de igreja e Estado é feita em respeito à religião. A religião pode fazer o que quiser, contanto que não seja ilegal".

Pierucci também vê o apelo religioso de Obama como estratégia para os que ainda resistem ao presidente. "Ele tem o nome árabe, não pode vacilar."

Mas o tom de pregação incomoda Roberto Romano: "O que me deixa escandalizado é o fato de Obama aceitar essa quase passagem de líder político para messias. Colocam sobre ele o papel de grande salvador da economia, ele é o Moisés que veio nos livrar do racismo".

"Os fundadores do Estado quiseram separar fundamentalmente: uma coisa é a administração do Estado, outra é a religião. Estamos num momento ambíguo desse trato", conclui Romano.

Leia a íntegra do discurso de posse de Barack Obama

"Meus companheiros cidadãos:

Estou aqui hoje sujeito à tarefa diante de nós, grato pela confiança que me foi concedida, consciente dos sacrifícios suportados por nossos ancestrais. Agradeço o presidente Bush por seu serviço à nação, bem como pela generosidade e cooperação que ele mostrou ao longo dessa transição.

Quarenta e quatro americanos agora já prestaram o juramento presidencial. Essas palavras foram ditas durante ondas crescentes de prosperidade e águas calmas de paz. E, de tempos em tempos, o juramento é feito em meio a nuvens carregadas e tormentas violentas. Nesses momentos, os Estados Unidos prosseguiram não apenas por causa de nossa habilidade ou pela visão daqueles no alto escalão, mas porque nós, o povo, permanecemos fiéis aos ideais de nossos ancestrais, e fiéis aos nossos documentos de fundação.

Tem sido assim. E precisa ser assim com esta geração de americanos.

Que estamos em meio a uma crise é bem conhecido agora. Nosso país está em guerra, contra uma ampla rede de violência e ódio. Nossa economia está gravemente enfraquecida, consequência da ganância e da irresponsabilidade da parte de alguns, mas também de um fracasso coletivo nosso em fazer escolhas difíceis e em preparar o país para uma nova era. Lares foram perdidos; empregos eliminados; empresas fechadas. Nosso sistema de saúde é muito caro; nossas escolas reprovam muitos; e cada dia traz novas provas de que as formas como usamos a energia reforçam nossos adversários e ameaçam nosso planeta.

Esses são os indicadores da crise, sujeitos a dados e estatísticas. Menos mensurável, mas não menos profunda, é a perda de vitalidade da confiança em nossa terra --um medo persistente de que o declínio dos Estados Unidos é inevitável, e de que a próxima geração precisa reduzir suas metas.

Hoje digo a vocês que os desafios que encaramos são reais. Eles são sérios e são muitos. Eles não serão enfrentados com facilidade ou em um período curto de tempo. Mas saibam disso, Estados Unidos: eles serão enfrentados.

Neste dia, nos reunimos porque escolhemos a esperança no lugar do medo, unidade de propósito no lugar do conflito e da discórdia.

Neste dia, vimos proclamar o fim das discordâncias mesquinhas e das falsas promessas, das recriminações e dos dogmas gastos, que por muito tempo estrangularam nossa política.

Continuamos a ser uma nação jovem, mas, nas palavras da Bíblia, é chegada a hora de deixar de lado as coisas infantis. É chegada a hora de reafirmar nosso espírito de persistência; de escolher a nossa melhor história; de levar adiante esse presente precioso, essa nobre ideia, passada de geração em geração: a promessa de Deus de que todos são iguais, todos são livres e todos merecem uma chance de buscar sua medida plena de felicidade.

Ao reafirmar a grandeza de nossa nação, entendemos que a grandeza nunca é dada. Ela precisa ser merecida. Nossa jornada nunca foi feita de atalhos ou de deixar por menos. Não foi uma trilha para os fracos de coração --para aqueles que preferem o lazer ao trabalho, ou apenas a busca de prazeres e riquezas e fama. Ao invés disso, tem sido uma jornada para os que assumem riscos, os realizadores, os que fazem as coisas --alguns celebrados, mas mais frequentemente homens e mulheres obscuros em suas obras--, que nos conduziram pelo longo e acidentado caminho em direção à prosperidade e liberdade.

Por nós, eles empacotaram suas poucas posses terrenas e viajaram pelos oceanos em busca de uma nova vida.

Por nós, eles deram duro em fábricas precárias e cruéis e colonizaram o oeste; suportaram o estalar do chicote e lavraram a terra dura.

Por nós, eles lutaram e morreram, em lugares como Concord e Gettysburg, Normandia e Khe Sahn.

Repetidas vezes esses homens e mulheres deram duro e se sacrificaram e trabalharam até suas mãos ficarem calejadas para que pudéssemos viver uma vida melhor. Eles viram os Estados Unidos como maiores que a soma de nossas ambições individuais; maiores que todas as diferenças de nascimento ou riqueza ou políticas.

Essa é a jornada que continuamos hoje. Continuamos a ser a nação mais próspera e poderosa da Terra. Nossos trabalhadores não são menos produtivos do que quando a crise começou. Nossas mentes não são menos inventivas, nossos bens e serviços não são menos necessários do que foram na semana passada ou no mês passado ou no ano passado. Nossa capacidade não diminuiu. Mas nossa hora de permanecermos imóveis, de proteger nossos estreitos interesses e adiar decisões desagradáveis --essa hora certamente passou. A partir de hoje temos de nos levantar, sacudir a poeira e começar de novo o trabalho de refazer os Estados Unidos.

Para todos os lados que olhamos há trabalho a ser feito. A condição da economia pede ação, ousada e rápida, e vamos agir --não apenas criando novos empregos, mas um novo fundamento para o crescimento. Vamos construir estradas e pontes, redes elétricas e linhas digitais que alimentem nosso comércio e nos una. Vamos restaurar a ciência a seu lugar de direito, e utilizar as maravilhas da tecnologia para elevar a qualidade dos serviços de saúde e reduzir seu custo. Vamos manipular a energia solar e dos ventos e da terra para abastecer nossos carros e dirigirmos nossas fábricas. E vamos transformar nossas escolas e faculdades e universidades para atender as demandas de uma nova era. Tudo isso podemos fazer. E tudo isso vamos fazer.

Agora, há alguns que questionam a escala de nossas ambições --que sugerem que nosso sistema não pode tolerar tantos grandes planos. As memórias desses são curtas. Pois eles esqueceram o que este país já fez; o que homens e mulheres livres podem alcançar quando a imaginação se une ao propósito comum, e a necessidade à coragem.

O que os cínicos não conseguem entender é que o terreno sob eles mudou --que os argumentos políticos envelhecidos que nos consumiram por tanto tempo não mais se aplicam. A pergunta que nos fazemos hoje não é se nosso governo é grande demais ou pequeno demais, mas se ele funciona --se ele ajuda famílias a encontrar empregos com um salário decente, uma previdência que eles consigam pagar, uma aposentadoria que seja digna. Onde a resposta for sim, pretendemos seguir adiante. Onde for não, os programas serão encerrados. E aqueles de nós que lidam com o dinheiro público serão responsabilizados --para gastar sabiamente, reformar maus hábitos e conduzir nossos negócios à luz do dia--, porque apenas então poderemos restaurar a confiança vital entre um povo e seu governo.

Nem está diante de nós a dúvida se o mercado é uma força para o bem ou para o mal. Seu poder de gerar riqueza e expandir a liberdade não tem iguais, mas a crise nos lembrou de que, sem um olhar vigilante, o mercado pode sair de controle --e que um país não pode prosperar quando favorece apenas os prósperos. O sucesso de nossa economia sempre dependeu não apenas do tamanho de nosso Produto Interno Bruto, mas do alcance de nossa prosperidade; de nossa habilidade de estender a oportunidade a todo aquele que a queira --não por caridade, mas porque essa é a rota mais certa para nosso bem comum.

Para nossa defesa comum, rejeitamos a falsa escolha entre nossa segurança ou nossos ideais. Nossos pais fundadores, diante de perigos que mal podemos imaginar, esboçaram um texto para garantir a regra da lei e os direitos do homem, um texto expandido com o sangue de gerações. Aqueles ideais ainda iluminam o mundo, e não vamos desistir deles em nome da conveniência. E para todos os povos e governos que nos assistem hoje, das grandiosas capitais à pequena vila onde meu pai nasceu: saibam que os Estados Unidos são amigos de todas as nações e de cada homem, mulher e criança que busque um futuro de paz e dignidade, e que estamos prontos para liderar mais uma vez.

Lembrem-se de que gerações anteriores derrotaram o fascismo e o comunismo não apenas com tanques e mísseis, mas com alianças vigorosas e convicções duradouras. Elas entenderam que nosso poder sozinho não pode nos proteger, nem nos dá direito a fazer o que quisermos. Ao contrário, elas sabiam que nosso poder cresce com seu uso prudente; nossa segurança emana da justeza de nossa causa, da força de nosso exemplo, das qualidades temperantes da humildade e da contenção.

Somos os guardiões desse legado. Guiados por esses princípios mais uma vez, podemos enfrentar essas novas ameaças que exigem esforços ainda maiores --uma cooperação e compreensão ainda maiores entre as nações. Vamos começar a entregar de forma responsável o Iraque ao seu povo, e forjar uma paz muito duramente conquistada no Afeganistão. Com velhos amigos e antigos inimigos, vamos trabalhar incansavelmente para reduzir a ameaça nuclear, fazer retroceder o espectro de um planeta em aquecimento. Não vamos nos desculpar por nosso modo de vida, nem vamos esmorecer em sua defesa, e para aqueles que buscam fazer avançar suas metas pela indução ao terror e massacrando inocentes, dizemos a vocês agora que nossa determinação é mais forte e não pode ser quebrada; vocês não podem nos esgotar e vamos derrotar vocês.

Pois sabemos que a colcha de retalhos de nossa herança é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus --e não-religiosos. Somos moldados por cada idioma e cultura, vindo de cada canto desta Terra; e porque experimentamos o gosto amargo da guerra civil e da segregação, e emergimos daquele capítulo obscuro mais fortes e mais unidos, não podemos evitar acreditar que os velhos ódios um dia vão passar; que as linhas tribais em breve se dissolverão; que enquanto o mundo se torna menor, nossa humanidade comum se revelará; e que os Estados Unidos têm de desempenhar seu papel em conduzir uma nova era de paz.

Para o mundo muçulmano, buscamos um novo caminho para seguir adiante, baseado no interesse mútuo e no respeito mútuo. Para aqueles líderes ao redor do mundo que buscam colher conflitos, ou culpar o Ocidente pelos males de sua sociedade: saibam que seus povos os julgarão pelo que podem construir, não pelo que destroem. Para aqueles que se agarram ao poder através da corrupção e da mentira e silenciando dissidentes, saibam que vocês estão do lado errado da história; mas que estenderemos a mão a vocês se estiverem dispostos a abrirem os punhos.

Para as pessoas das nações pobres, nos propomos a trabalhar com você para fazer suas fazendas florescerem e deixar águas limpas correrem; para nutrir corpos famintos e alimentar mentes famintas. E para aquelas nações como a nossa que usufruem de relativa fartura, dizemos que não podemos mais mantermos a indiferença ao sofrimento fora de nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos do mundo sem considerar os efeitos. pois o mundo mudou, e precisamos mudar com ele.

Ao considerarmos as estradas que se abrem diante de nós, lembramos com humildade aqueles bravos americanos que, nesta exata hora, patrulham desertos longínquos e montanhas distantes. Eles têm algo a nos dizer hoje, bem como aqueles heróis que jazem em Arlington sussurram através dos tempos. Nós os honramos não apenas porque eles são os guardiões de nossa liberdade, mas porque eles incorporam o espírito de servir, uma vontade de realizar algo maior que eles mesmos. E, neste momento --um momento que definirá uma geração--, esse é precisamente o espírito que tem de habitar em todos nós.

Pois, por mais que o governo possa fazer e tenha de fazer, no fim é sobre a fé e a determinação do povo americano que esta nação se apoia. É a gentileza de abrigar um estranho quando as barragens se rompem, é o desprendimento dos trabalhadores que preferem um corte em suas horas trabalhadas a ver um amigo perder o emprego que nos observam em nossas horas mais difíceis. É a coragem do bombeiro de subir uma escadaria cheia de fumaça, mas também a disposição dos pais em nutrir um filho que no fim decidem nosso destino.

Nossos desafios podem ser novos. Os instrumentos com que nos deparamos podem ser novos. Mas aqueles valores dos quais nosso sucesso depende --trabalho duro e honestidade, coragem e justiça, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo--, essas coisas são antigas. Essas coisas são verdadeiras. Elas têm sido a força silenciosa do progresso ao longo de nossa história. O que se exige, então, é um retorno a essas verdades. O que se pede a nós agora é uma nova era de responsabilidade --um reconhecimento, por parte de cada americano, de que temos deveres para conosco, nosso país e o mundo; deveres que não aceitamos com rancor, mas que recebemos com gratidão, firmes na certeza de que não há nada tão satisfatório para nosso espírito, nada tão definidor de nosso caráter quanto entregarmos tudo de nós mesmos a uma tarefa difícil.

Esse é o preço e a promessa da cidadania.

Essa é a fonte de nossa confiança --a certeza de que Deus nos chama para dar forma a um destino incerto.

Esse é o sentido de nossa liberdade e de nossa crença --o por que cada homem e mulher e criança de cada raça e cada crença pode se juntar em celebração nesta magnífica avenida, e o por que um homem, cujo pai há menos de 60 anos podia não ser servido em um restaurante local, pode agora estar diante de vocês para fazer o juramento mais sagrado.

Vamos marcar esse dia com a lembrança de quem somos e quão longe chegamos. No ano do nascimento dos Estados Unidos, no mais frio dos meses, um pequeno bando de patriotas se juntou ao redor de fracas fogueiras à beira de um rio gelado. A capital foi abandonada. O inimigo estava avançando. A neve estava manchada de sangue. Em um momento em que o resultado da revolução estava em dúvida, o pai de nossa nação ordenou que essas palavras fossem lidas ao povo:

"Que isso seja dito ao mundo futuro (...) que nas profundezas do inverno, quando nada além da esperança e da virtude poderiam sobreviver (...) que a cidade e o país, alarmados por um perigo comum, avancem para enfrentar."

Estados Unidos. Diante de nossos perigos em comum, neste inverno de dificuldades, vamos lembrar essas palavras imemoriais. Com esperança e virtude, vamos enfrentar mais uma vez as correntes geladas, e as tempestades que podem vir. Que os filhos de nossos filhos digam que quando fomos testados, nos recusamos a deixar essa jornada acabar, que não recuamos, nem que hesitamos; e com olhos fixos no horizonte e com a graça de Deus sobre nós, levamos adiante nossa liberdade e a entregamos em segurança para as gerações futuras."

Fonte: Folha Online

Leia a íntegra do discurso de Obama, em português

Leia abaixo a íntegra do discurso de posse do presidente dos EUA, Barack Obama.


Meus caros concidadãos

Estou aqui hoje humildemente diante da tarefa que temos pela frente, grato pela confiança que vocês depositaram em mim, ciente dos sacrifícios suportados por nossos ancestrais. Agradeço ao presidente Bush pelos serviços que prestou à nação, assim como pela generosidade e a cooperação que ele demonstrou durante esta transição.


Quarenta e quatro americanos já fizeram o juramento presidencial. As palavras foram pronunciadas durante marés ascendentes de prosperidade e nas águas plácidas da paz. Mas de vez em quando o juramento é feito entre nuvens carregadas e tempestades violentas. Nesses momentos, a América seguiu em frente não apenas por causa da visão ou da habilidade dos que ocupavam os altos cargos, mas porque nós, o povo, permanecemos fiéis aos ideais de nossos antepassados e leais aos nossos documentos fundamentais.

Assim foi. Assim deve ser para esta geração de americanos.

Que estamos em meio a uma crise hoje é bem sabido. Nossa nação está em guerra, contra uma ampla rede de violência e ódio. Nossa economia está gravemente enfraquecida, uma consequência da cobiça e da irresponsabilidade de alguns, mas também de nosso fracasso coletivo em fazer escolhas difíceis e preparar o país para uma nova era. Lares foram perdidos; empregos, cortados; empresas, fechadas. Nosso sistema de saúde é caro demais; nossas escolas falham para muitos; e cada dia traz novas evidências de que os modos como usamos a energia reforçam nossos adversários e ameaçam nosso planeta.

Esses são indicadores de crise, sujeitos a dados e estatísticas. Menos mensurável, mas não menos profundo, é o desgaste da confiança em todo o nosso país -- um temor persistente de que o declínio da América é inevitável, e que a próxima geração deve reduzir suas perspectivas.

Hoje eu lhes digo que os desafios que enfrentamos são reais. São sérios e são muitos. Eles não serão resolvidos facilmente ou em um curto período de tempo. Mas saiba disto, América -- eles serão resolvidos.

Neste dia, estamos reunidos porque escolhemos a esperança acima do medo, a unidade de objetivos acima do conflito e da discórdia.

Neste dia, viemos proclamar o fim dos sentimentos mesquinhos e das falsas promessas, das recriminações e dos dogmas desgastados que por tanto tempo estrangularam nossa política.

Ainda somos uma nação jovem, mas, nas palavras da escritura, chegou o tempo de pôr de lado as coisas infantis. Chegou o tempo de reafirmar nosso espírito resistente; de escolher nossa melhor história; de levar adiante esse dom precioso, essa nobre ideia, transmitida de geração em geração: a promessa dada por Deus de que todos são iguais, todos são livres e todos merecem a oportunidade de perseguir sua plena medida de felicidade.

Ao reafirmar a grandeza de nossa nação, compreendemos que a grandeza nunca é um fato consumado. Deve ser merecida. Nossa jornada nunca foi de tomar atalhos ou de nos conformar com menos. Não foi um caminho para os fracos de espírito -- para os que preferem o lazer ao trabalho, ou buscam apenas os prazeres da riqueza e da fama. Foram, sobretudo, os que assumem riscos, os que fazem coisas -- alguns célebres, mas com maior frequência homens e mulheres obscuros em seu labor, que nos levaram pelo longo e acidentado caminho rumo à prosperidade e à liberdade.

Por nós, eles empacotaram seus poucos bens terrenos e viajaram através de oceanos em busca de uma nova vida.

Por nós, eles suaram nas oficinas e colonizaram o Oeste; suportaram chicotadas cortantes e lavraram a terra dura.

Por nós, eles lutaram e morreram, em lugares como Concord e Gettysburg, na Normandia e em Khe Sahn.

Incansavelmente, esses homens e mulheres lutaram, se sacrificaram e trabalharam até ralar as mãos para que pudéssemos ter uma vida melhor. Eles viam a América como algo maior que a soma de nossas ambições individuais; maior que todas as diferenças de nascimento, riqueza ou facção.

Esta é a jornada que continuamos hoje. Ainda somos a nação mais próspera e poderosa da Terra. Nossos trabalhadores não são menos produtivos do que quando esta crise começou. Nossas mentes não são menos criativas, nossos produtos e serviços não menos necessários do que foram na semana passada, no mês passado ou no ano passado. Nossa capacidade continua grande. Mas nosso tempo de repudiar mudanças, de proteger interesses limitados e de protelar decisões desagradáveis -- esse tempo certamente já passou. A partir de hoje, devemos nos reerguer, sacudir a poeira e começar novamente o trabalho de refazer a América.

Para todo lugar aonde olharmos há trabalho a ser feito. A situação da economia pede ação ousada e rápida, e vamos agir -- não apenas para criar novos empregos, mas depositar novas bases para o crescimento. Vamos construir estradas e pontes, as redes elétricas e linhas digitais que alimentam nosso comércio e nos unem. Vamos restabelecer a ciência a seu devido lugar e utilizar as maravilhas da tecnologia para melhorar a qualidade dos serviços de saúde e reduzir seus custos. Vamos domar o sol, os ventos e o solo para movimentar nossos carros e fábricas. E vamos transformar nossas escolas, colégios e universidades para suprir as demandas de uma nova era. Tudo isso nós podemos fazer. E tudo isso faremos.Os passos da posse

MEMÓRIA

  • AFP - 5.nov.2008


Agora, há alguns que questionam a escala de nossas ambições -- que sugerem que nosso sistema não pode tolerar um excesso de grandes planos. Suas memórias são curtas. Pois eles esqueceram o que este país já fez; o que homens e mulheres livres podem conseguir quando a imaginação se une ao objetivo comum, e a necessidade à coragem.

O que os cínicos não entendem é que o chão se moveu sob eles -- que as discussões políticas mofadas que nos consumiram por tanto tempo não servem mais. A pergunta que fazemos hoje não é se nosso governo é grande demais ou pequeno demais, mas se ele funciona -- se ele ajuda as famílias a encontrar empregos com salários decentes, tratamentos que possam pagar, uma aposentadoria digna. Quando a resposta for sim, pretendemos seguir adiante. Quando a resposta for não, os programas terminarão. E aqueles de nós que administram os dólares públicos terão de prestar contas -- gastar sabiamente, reformar os maus hábitos e fazer nossos negócios à luz do dia -- porque somente então poderemos restaurar a confiança vital entre uma população e seu governo.

Tampouco enfrentamos a questão de se o mercado é uma força do bem ou do mal. Seu poder de gerar riqueza e expandir a liberdade é inigualável, mas esta crise nos lembrou de que sem um olhar vigilante o mercado pode sair do controle -- e que uma nação não pode prosperar por muito tempo quando favorece apenas os prósperos. O sucesso de nossa economia sempre dependeu não apenas do tamanho de nosso Produto Interno Bruto, mas do alcance de nossa prosperidade; de nossa capacidade de estender oportunidades a todos os corações dispostos -- não por caridade, mas porque é o caminho mais certeiro para o nosso bem comum.

Quanto a nossa defesa comum, rejeitamos como falsa a opção entre nossa segurança e nossos ideais. Nossos pais fundadores, diante de perigos que mal podemos imaginar, redigiram uma carta para garantir o regime da lei e os direitos do homem, uma carta expandida pelo sangue de gerações. Aqueles ideais ainda iluminam o mundo, e não vamos abandoná-los em nome da conveniência. E assim, para todos os outros povos e governos que nos observam hoje, das maiores capitais à pequena aldeia onde meu pai nasceu: saibam que a América é amiga de toda nação e de todo homem, mulher e criança que busque um futuro de paz e dignidade, e que estamos prontos para liderar novamente.

Lembrem que as gerações passadas enfrentaram o fascismo e o comunismo não apenas com mísseis e tanques, mas com sólidas alianças e convicções duradouras. Elas compreenderam que somente nossa força não é capaz de nos proteger, nem nos dá o direito de fazer o que quisermos. Pelo contrário, elas sabiam que nosso poder aumenta através de seu uso prudente; nossa segurança emana da justeza de nossa causa, da força de nosso exemplo, das qualidades moderadoras da humildade e da contenção.

Somos os mantenedores desse legado. Conduzidos por esses princípios mais uma vez, podemos enfrentar essas novas ameaças que exigem um esforço ainda maior -- maior cooperação e compreensão entre as nações. Vamos começar de maneira responsável a deixar o Iraque para sua população, e forjar uma paz duramente conquistada no Afeganistão. Com antigos amigos e ex-inimigos, trabalharemos incansavelmente para reduzir a ameaça nuclear e reverter o espectro do aquecimento do planeta. Não pediremos desculpas por nosso modo de vida, nem vacilaremos em sua defesa, e aos que buscam impor seus objetivos provocando o terror e assassinando inocentes dizemos hoje que nosso espírito está mais forte e não pode ser dobrado; vocês não podem nos superar, e nós os derrotaremos.

Pois sabemos que nossa herança de colcha de retalhos é uma força, e não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus -- e de descrentes. Somos formados por todas as línguas e culturas, saídos de todos os cantos desta Terra; e como provamos o sabor amargo da guerra civil e da segregação, e emergimos daquele capítulo escuro mais fortes e mais unidos, só podemos acreditar que os antigos ódios um dia passarão; que as linhas divisórias logo se dissolverão; que, conforme o mundo se tornar menor, nossa humanidade comum se revelará; e que a América deve exercer seu papel trazendo uma nova era de paz.

Ao mundo muçulmano, buscamos um novo caminho à frente, baseado no interesse mútuo e no respeito mútuo. Para os líderes de todo o mundo que buscam semear conflito, ou culpam o Ocidente pelos males de sua sociedade -- saibam que seu povo os julgará pelo que vocês podem construir, e não pelo que vocês destroem. Para os que se agarram ao poder através da corrupção e da fraude e do silenciamento dos dissidentes, saibam que vocês estão no lado errado da história; mas que lhes estenderemos a mão se quiserem abrir seu punho cerrado.

Aos povos das nações pobres, prometemos trabalhar ao seu lado para fazer suas fazendas florescer e deixar fluir águas limpas; alimentar corpos famintos e nutrir mentes famintas. E para as nações como a nossa, que gozam de relativa abundância, dizemos que não podemos mais suportar a indiferença pelos que sofrem fora de nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos do mundo sem pensar nas consequências. Pois o mundo mudou, e devemos mudar com ele.

Ao considerar o caminho que se desdobra a nossa frente, lembramos com humilde gratidão daqueles bravos americanos que, nesta mesma hora, patrulham desertos longínquos e montanhas distantes. Eles têm algo a nos dizer hoje, assim como os heróis caídos que repousam em Arlington sussurram através dos tempos. Nós os honramos não só porque são os guardiões de nossa liberdade, mas porque eles personificam o espírito de servir; a disposição para encontrar significado em algo maior que eles mesmos. No entanto, neste momento -- um momento que definirá uma geração -- é exatamente esse espírito que deve habitar em todos nós.

Pois por mais que o governo possa fazer e deva fazer, afinal é com a fé e a determinação do povo americano que a nação conta. É a bondade de hospedar um estranho quando os diques se rompem, o altruísmo de trabalhadores que preferem reduzir seus horários a ver um amigo perder o emprego, que nos fazem atravessar as horas mais sombrias. É a coragem do bombeiro para subir uma escada cheia de fumaça, mas também a disposição de um pai a alimentar seu filho, o que finalmente decide nosso destino.

Nossos desafios podem ser novos. Os instrumentos com que os enfrentamos podem ser novos. Mas os valores de que depende nosso sucesso -- trabalho duro e honestidade, coragem e justiça, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo -- essas são coisas antigas. São coisas verdadeiras. Elas têm sido a força silenciosa do progresso durante toda a nossa história. O que é exigido de nós hoje é uma nova era de responsabilidade -- um reconhecimento, por parte de todos os americanos, de que temos deveres para nós mesmos, nossa nação e o mundo, deveres que não aceitamos resmungando, mas sim agarramos alegremente, firmes no conhecimento de que não há nada tão satisfatório para o espírito, tão definidor de nosso caráter, do que dar tudo o que podemos em uma tarefa difícil.

Esse é o preço e a promessa da cidadania.

Essa é a fonte de nossa confiança -- o conhecimento de que Deus nos chama para moldar um destino incerto.

Esse é o significado de nossa liberdade e nosso credo -- a razão por que homens e mulheres e crianças de todas as raças e todas as fés podem se unir em comemoração neste magnífico espaço, e por que um homem cujo pai, menos de 60 anos atrás, talvez não fosse atendido em um restaurante local hoje pode se colocar diante de vocês para fazer o juramento mais sagrado.

Por isso vamos marcar este dia com lembranças, de quem somos e do longo caminho que percorremos. No ano do nascimento da América, no mês mais frio, um pequeno bando de patriotas se amontoava junto a débeis fogueiras nas margens de um rio gelado. A capital fora abandonada. O inimigo avançava. A neve estava manchada de sangue. No momento em que o resultado de nossa revolução era mais duvidoso, o pai de nossa nação ordenou que estas palavras fossem lidas para o povo:

"Que seja dito ao mundo futuro ... que na profundidade do inverno, quando nada exceto esperança e virtude poderiam sobreviver ... que a cidade e o país, alarmados diante de um perigo comum, avançaram para enfrentá-lo".

A América, diante de nossos perigos comuns, neste inverno de nossa dificuldade, vamos nos lembrar dessas palavras atemporais. Com esperança e virtude, vamos enfrentar mais uma vez as correntes geladas, e suportar o que vier. Que seja dito pelos filhos de nossos filhos que quando fomos testados nos recusamos a deixar esta jornada terminar, não viramos as costas nem vacilamos; e com os olhos fixos no horizonte e com a graça de Deus sobre nós, levamos adiante o grande dom da liberdade e o entregamos em segurança às futuras gerações.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves