quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A polêmica da próstata

Orientação do governo para que homens sem sintomas não façam o exame de toque irrita médicos

Greice Rodrigues

Uma recomendação do Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulgada na última semana provocou uma polêmica como há tempos não se via na comunidade médica. O órgão publicou nota desaconselhando homens sem sintomas a fazerem o exame clínico (toque retal) e o teste sangüíneo para medir a dosagem do PSA (sigla de antígeno prostático específico) como forma preventiva de diagnóstico de câncer de próstata. Segundo o instituto, as medidas só seriam indicadas nos casos em que há sinais como presença de sangue na urina, dor ou queimação ao urinar.

As justificativas da entidade são muitas. Primeiro, argumenta que não existe comprovação científica de que, do ponto de vista da saúde pública, os exames reduzam a mortalidade. O Inca afirma ainda que nem todos os tumores precisam de tratamento. "Se for do tipo que evolui lentamente, o paciente pode conviver com ele sem danos à saúde", defende a epidemiologista Ana Ramalho, gerente da Divisão de Gestão da rede oncológica do Inca.

A posição deixou as entidades médicas perplexas. De acordo com o urologista Ubirajara Ferreira, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia - Seção São Paulo, a recomendação representa um retrocesso na luta contra uma doença curável se diagnosticada cedo. "Esperar a ocorrência de sintomas para ir ao médico é um risco que pode custar a vida. Os sinais indicam tumor em estágio avançado", diz. Esse risco o empresário paulista Carlos Alberto Ruano, 54 anos, não quis correr. Aos 45 anos, submeteu-se aos exames. "Não tinha sintomas, mas queria ter certeza de que estava tudo bem. O resultado foi normal", conta. Há dois anos ele repetiu os testes, negativos novamente. Na avaliação do especialista Miguel Srougi, uma das maiores autoridades no assunto, o instituto se baseou em estudos ainda não concluídos para tomar a decisão. "A declaração vai condenar milhares de homens a morrer sem tratamento", critica.

Na opinião do médico Ferreira, a atitude do instituto pode visar uma redução de gastos na saúde pública - sabe-se que o rastreamento tem custos elevados para o governo. A médica Ana Ramalho, do Inca, contesta. "Não estamos decidindo isso pelo custo, mas pela inexistência de benefícios. Não há por que gastar dinheiro público com o que não traz resultados", afirma. De qualquer maneira, os médicos não ligados ao Inca continuam a recomendar a realização dos testes.

 

21/11/2008


 
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