quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Achados objetos religiosos de escravos sob casas nos EUA

Em seus anos de experiência na exploração de velhas casas e ruas em Annapolis, Maryland, arqueólogos localizaram muitos artefatos da cultura dos escravos dos Estados Unidos, entre os quais restos humildes de práticas religiosas que portam as marcas dos antecedentes dos escravos na África Ocidental.

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(Fonte: Terra) - No começo do século 18, ainda que fossem batizados os escravos negros se apegavam às "práticas espirituais", em rituais de cura e invocação de ancestrais e de poderes sobrenaturais. Ocasionalmente definidos como magia negra, esses rituais de ocultismo persistiram nos Estados Unidos em formas modificadas posteriores, como o vodu e o hoodoo.

Arqueólogos da Universidade de Maryland descobriram em Annapolis o que afirmam representar um dos primeiros exemplos de artefatos religiosos tradicionais africanos na América do Norte.

Trata-se de um "feixe" de argila, mais ou menos do tamanho e forma de uma bola de futebol americano, recheado com 300 pedaços de metal, e contendo também um machado de pedra, cuja lâmina surge da argila, apontando para o alto.

O feixe, localizado em abril e datado de 1700, parece ser uma transferência direta de práticas religiosas africanas ao que hoje é os Estados Unidos, disse Mark Leone, professor de antropologia em Maryland e diretor das escavações. Os materiais e a forma de construção, ele diz, diferem dos artefatos de hoodoo anteriormente localizados em Annapolis.

"O feixe tem forma africana, e não afro-americana", disse Leone ao anunciar a descoberta. "As pessoas que o produziram usaram materiais locais. Mas seu conhecimento dos encantamentos e do mundo espiritual provavelmente veio com elas diretamente da África".

Em entrevistas concedidas na semana passada, Leone e estudiosos da cultura da África Ocidental disseram que não eram capazes de determinar a associação do feixe com uma religião ou grupo étnico específico.

Fredrick Lamp, curador de arte africana na Galeria de Arte da Universidade Yale, que não estava envolvido nas escavações, disse que "não havia motivo para duvidar" da conexão direta entre o feixe e uma longa tradição de práticas religiosas da África Ocidental.

"Mas os feixes recheados de materiais parecem ter extraordinário poder espiritual e são utilizados por muitas culturas africanas diferentes", ele afirmou.

Lamp disse que um exame de raio-X quando ao conteúdo do feixe revelou chumbo de caça, pregos de ferro e pinos de cobre. "Alguns dos pinos haviam sido dobrados, indicando que essa prática era parte deliberada do ritual", ele afirmou.

O metal trabalhado com fogo era amplamente visto como dotado de poderes especiais, acrescentou Lamp, "e combinar esses materiais em argila compactada supostamente ampliava o poder dos objetos". A prática, ele afirma, está bem documentada até o presente nos grupos Mande, especialmente nos territórios dos atuais Serra Leoa, Guiné e Mali, e entre os iorubas da Nigéria e do Benin.

E o povo kongo tampouco pode ser descartado como originador dessas práticas religiosas, dizem os estudiosos. A cultura kongo, que vive nas áreas em torno do rio Congo e em Angola e Cabinda, foi uma fonte importante de escravos negros para as Américas.

Os feixes dos kongo contêm pedras, conchas e outros itens que supostamente abrigam os espíritos dos mortos para uso dos vivos, em um costume que sublinha as práticas do hoodoo.

O componente mais notável do feixe, o machado de pedra, parece especialmente intrigante. Lamp disse que ele lembra os iorubas e os fon, um povo do Benin, que consideram a lâmina do machado como símbolo de Xangô, seu deus do trovão e do relâmpago.

Matthew Cochran, estudante de doutorado em antropologia no Universidade College de Londres, o descobrir do feixe, disse que era provável que um dia surja prova de que o objeto está associado a práticas iorubas e a Xangô.

Nas terras da costa oeste-africana, então, e ainda hoje em suas áreas rurais, esses rituais e materiais estavam e estão em uso por praticantes comunitários cujo papel se assemelha ao dos pajés entre os indígenas brasileiros.

Eles não tinham vínculo com qualquer religião de alcance mais amplo ou instituição. Mas as pessoas os procuravam em seus pequenos santuários nas matas, em momentos de dor ou perturbação. Os praticantes, usando um desses feixes, reuniam as forças espirituais para lidar com crises pessoais.

O feixe de Annapolis, presumivelmente feito por alguém que havia imigrado há pouco tempo da África Ocidental, foi encontrado 1,20 metro abaixo da rua Fleet, que fica perto da sede do Legislativo estadual de Maryland. O objeto tem 25 centímetros de altura, 15 centímetros de largura e 10 centímetros de espessura.

Continua intacto, embora seu revestimento externo, provavelmente de tecido ou couro, se tenha decomposto, deixando uma impressão na superfície. O feixe deve entrar em exibição esta semana no Museu Afro-Americano de Annapolis.

Cochran disse que, enquanto escavava no fundo da vale, o objeto lhe pareceu inicialmente uma grande pedra lisa, envolta por sedimento. Mas ele percebeu chumbinhos espalhados por perto. Quando os arqueólogos libertaram o objeto, um dos cantos se abriu, expondo os pinos e pregos depositados no interior.

"Já vi materiais de hoodoo encontrados em Annapolis", disse Cochran, "e minha sensação imediata foi a de que tínhamos em mãos algo de africano e de importante, mas eu não estava certo quanto ao que fosse".

Os restos de objetos religiosos de origem africana localizados anteriormente foram descobertos em quintais ou escondidos sob fornos ou nos cantos de porões.

Leone diz que o feixe foi provavelmente colocada no meio-fio, e a céu aberto, em posição visível. A visibilidade sugere "um nível inesperado de tolerância pública" à religião africana, na Annapolis da era colonial. Os objetos encontrados em locais ocultos datam de 50 anos mais tarde.

Artigos em jornais de época afirmam que os brancos da cidade também praticavam magia e feitiçaria, da variedade inglesa. "Ou seja, práticas espirituais européias e africanas parecem ter sido mais aceitáveis então", ele concluiu. "Mas isso mudou depois de 1750".
 

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