segunda-feira, 17 de setembro de 2007

VITÓRIA DE PIRRO

VITÓRIA DE PIRRO


Públio José – jornalista
(publiojose@digizap.com.br)

Muitos conhecem o significado da expressão “vitória de Pirro”. É aquela que, de tão sacrificada, de tão desgastada, de tão violentamente conquistada, praticamente não valeu a pena alcançar. A história registra a vitória de um rei que indo ao campo de batalha, para vislumbrar o cenário da derrota do inimigo, lá encontrou seu exército também tão destroçado, que lamentou amargamente o resultado do confronto. Daí o termo. Essa digressão vem a calhar agora, momento em que a vitória do senador Renan Calheiros, no âmbito do Senado Federal, ocasionou um prejuízo moral tão grande à sua pessoa que ele não tem como se alegrar. Pelo que se viu na cobertura jornalística das televisões, o seu semblante, e de todos os que votaram a seu favor, demonstrava um constrangimento tão grande, que a absolvição não permitiu nenhum instante de comemoração. Valeu a pena o alcance de tal vitória?
Além do mais, nessa conjuntura de constrangimento geral que vive a nação brasileira, outra pergunta também merece ser feita: qual o futuro do político Renan Calheiros? Moralmente arrasado, eticamente destroçado, após passar para o Brasil inteiro a imagem de alguém capaz de servir-se dos mais espúrios instrumentos para defender seus interesses, Renan hoje é como se fosse uma laranja chupada, cujos restos só servem para habitar a lata do lixo. E o que mais revolta no seu comportamento é a insensibilidade que demonstra pelo destino das instituições, em especial o do Senado Federal, palco, no último dia 12 de setembro, do mais escabroso episódio da vida pública brasileira. Mas ele não ficou só nisso. A nota por ele publicada, na noite em que foi absolvido, é uma cusparada a mais no rosto do povo brasileiro, aliás, já envergonhado o suficiente pela simples existência do processo.
Por outro lado, falta a Renan Calheiros, e a seus seguidores, uma retórica, um discurso, um argumento que passe a idéia de algum preparo intelectual para sustentar a contenda. Não, nem isso existe. As colocações, os argumentos são tão pobres e tão desprovidos de qualquer conteúdo convincente, que nos dão uma sensação de que ele e seus aliados não se cansam de escarrar na nossa cara loas e mais loas sem sentido. O intuito? Ganhar tempo para virar o jogo. Com isso, seus argumentos vão ficando cada vez mais inconsistentes, levando-o a se aparentar, quanto mais o tempo passa, com Rolando Lero – aquele inesquecível personagem dos humorísticos da tv. Só que Rolando Lero era inofensivo. Já Renan... Vejamos, em sã consciência, que peso lógico tem a afirmação contida em sua nota, e nas declarações dadas à Imprensa pelos seus aliados, de que a sua vitória “representou uma vitória da democracia”.
Da democracia? Ora, ora, ora, cara pálida! É pra rir ou pra chorar? Pelas barbas do profeta!!! O que tem a democracia com esse lamaçal todo? Que fio condutor conecta as mutretas de Renan ao regime democrático? Ao contrário, o que o senador deixa bem patente é que, com o poder na mão, sua natureza coronelística e ditatorial não tem limites. Renan, hoje, é visto como um homem capaz de tudo para alcançar seus objetivos – doa em quem doer. O consolo que resta é que ele tem mais três broncas grandes para resolver. E aí, sinceramente, não vejo como terá fôlego para enfrentar estes próximos embates. Ao final destas linhas, um esclarecimento: escrevo este artigo em respeito a um pedido de meu filho mais novo, Pablo Augusto, e de seus colegas de faculdade, revoltados com a absolvição do senador. Portanto, da nova geração, uma bem-vinda demonstração de brasilidade. Renovemos as esperanças.

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