segunda-feira, 3 de setembro de 2007

UM PAÍS DE CAUTELOSOS

UM PAÍS DE CAUTELOSOS


Públio José – jornalista
(publiojose@digizap.com.br)

O mundo está assombrado com o nível de cautela que existe no Brasil. Por aqui é tudo muito cauteloso. Para chegar a essa conclusão, basta dar uma checada nos últimos fatos que monopolizam os espaços da mídia. Vejamos o caso de Renan Calheiros, por exemplo. Já há evidências suficientes para o seu julgamento por falta de decoro parlamentar. Mas o julgamento acontece? Nem, nem. Há tempos eu venho observando. E o resultado dessa observação nos leva até a rir. Quando surge uma denúncia ele logo se movimenta para criar um elemento de defesa. Aí, cautelosamente, órgãos e pessoas envolvidos na investigação esquecem tudo que ficou para trás e se voltam à investigação do fato novo. Lógico que as novas providências adotadas para analisar cada nova embromação do senador são tomadas cautelosamente. E assim, cautelosamente, ele vai ganhando tempo e empurrando tudo com a barriga. Eu já perdi a conta das vezes em que a palavra “cautela” foi pronunciada desde que Renan Calheiros recebeu a denúncia da revista Veja. Todos os parlamentares envolvidos, inclusive os da oposição, colocaram, desde o início, a necessidade, a condição de se investigar tudo “com muita cautela”. Enquanto isso, Renan já demonstrou ao país ser o mais rematado cara-de-pau que habitou a cadeira de presidente do Senado – e nada acontece. Todos continuam vendo seu caso com muita cautela. Causa espanto o jeitão sorridente, relaxado, largadão de Renan no Senado, sentado na confortável e luxuosa cadeira presidencial. Causa mais espanto ainda como, cinicamente, ele inventa novos artifícios, novos motivos para postergar, adiar, a jogar para adiante qualquer decisão que ponha em risco o domínio que ele tem sobre a geografia parlamentar brasileira. E faz tudo, é claro, cautelosamente.
E, cautelosamente, ele vai colhendo os frutos de sua estratégia. Por outro lado, e como não poderia deixar de ser, a opinião pública brasileira, também cautelosamente, vai se acostumando a ter um presidente do Senado enrolado até o gogó em falcatruas as mais variadas e craque em inventar histórias as mais cabeludas para permanecer no cargo. A ética, o decoro, o caráter, a moral, o testemunho que se lixem. Tudo para as calendas – menos Renan Calheiros. Claro, lógico, tudo com muita cautela – e sem açodamentos. Por sinal, essa palavra “açodamento” você também ouviu muito ultimamente, não é verdade? É o contrário de cautela. Daí que o sujeito pra ser legal, amigão mesmo, não pode agir açodadamente. Tem de agir com cautela. Maneiro, esperto, atento, malandro. Assim como Renan – entendeu? Ah, meu Brasil, há quantas andas, enrolado que estás com tantos destes?
Essa mania das instituições brasileiras – aí também incluído o seu povo – de atuar nas mais diversas situações com cautela excessiva esconde, na verdade, um caráter hesitante, vacilante do “homo brasiliensis”. Esse fenômeno torna-o incapaz, salvo exceções, de tomar posição diante dos desafios que surgem a cada dia. O negócio, então, é se omitir de problemas e empurrar tudo com a barriga - cautelosamente. Nada de se discutir com realismo, com seriedade temas polêmicos e dolorosos. Tudo vai, cautelosamente, sendo adiado, colocado para mais adiante. Enquanto isso, os espertos vão se dando bem. Hoje, quem tem algum problema na Justiça, é logo orientado a ganhar tempo, tratando a questão, é claro, com cautela. Agora, com o exemplo de Renan, essa postura vai ficar ainda mais evidente, fazendo surgir, quem sabe, até um novo fenômeno: a “renanembromoterapia”. Cautelosamente. Ah, meu Brasil...

jornalgenesis@gmail.com

Nenhum comentário: