segunda-feira, 11 de junho de 2007

RENAN, O BONZINHO


Públio José – jornalista
(publiojose@digizap.com.br)

Uma cena que muito me emocionou ultimamente aconteceu durante entrevista dada à Imprensa pelo senador Renan Calheiros, no saguão do Senado Federal, logo após ter feito sua defesa às denúncias de recebimento de doações ilegais por parte de uma empreiteira. Ali, diante de uma montanha de microfones, de uma multidão de repórteres do país inteiro, com semblante angelical, o parlamentar deu uma verdadeira aula de bondade, de piedade, de altruísmo, de preocupação com o bem estar do próximo. Quanta sabedoria, quanto discernimento, quanto conhecimento, demonstrado diante de todos, de práticas familiares e de conceitos cristãos! Quase fui às lágrimas. Em primeiro lugar se disse tranqüilo, não temendo nada que pudesse lhe acontecer como resultado às denúncias de pagamento de contas pessoais suas por uma empresa prestadora de serviço a órgãos do governo.
Em segundo lugar, quase choroso (que peninha!), confessou-se zeloso cumpridor de suas obrigações como pai, mesmo de criança gerada em relação extraconjugal. Disse lá pras tantas que protegeu a mãe e o rebento, dando-lhes toda provisão necessária à travessia do período de gestação. Quanta bondade! Fico até pensando, cá com meus botões, se a partir de agora não me inclino a sugerir o nome do senador Renan Calheiros como conselheiro, aliás, bastante qualificado, em assuntos envolvendo a família brasileira. A preocupação por ele demonstrada com o destino da criança, incluindo nesse rol de atitudes uma bela quantia para um fundo de educação e cultura (que golaço, Renan, que golaço!) nos passa uma idéia bem aproximada do caráter e dos nobres sentimentos que se aninham no coração do ilustre parlamentar. E nos levam a concluir pela absoluta validade de conceder-se a ele mais este título.
Renan, o conselheiro da família brasileira! Renan, o bom! A entrega da comenda dar-se-ia, com certeza, em seção solene do Congresso Nacional, com a presença, além dos seus pares, de padres, bispos, pastores, cardeais e demais lideranças das várias correntes religiosas que lustram o céu cristão do Brasil. Com o adendo de que, logo em seguida, na Praça dos Três Poderes, uma estátua do exemplar alagoano seria inaugurada – para glória dos ditames, diretrizes e políticas voltadas para a defesa, o engrandecimento e a solidificação da família brasileira. Depois, num encadeamento lógico, em reunião ministerial, presidida pelo Presidente da República, ao lado o ilustre senador, haveria o lançamento de um novo plano governamental: o PDDF – Plano de Desenvolvimento e Defesa da Família. Muitas palmas para o senador, reconhecimento internacional também. Viva! Viva Renan!
Convém não esquecermos, mesmo diante de tanto ufanismo, da primeira parte da entrevista do senador. Aquela na qual afirmou está tranqüilo – apesar da metralha das denúncias. Momentos depois da afirmativa, o Brasil inteiro passou a ver, nos detalhes, o motivo de tanta tranqüilidade. O Senado inteiro, com raríssimas exceções, passou a trabalhar, com denodo, no sentido de blindar o acusado, de livrá-lo acintosamente da sua inexorável prestação de contas com o fruto de suas capiloçadas. Coisa feia! Anexando-se a esta farsa a outra, na qual Renan Calheiros posa de angelical defensor de si mesmo como pai zeloso, teremos o retrato fiel do ponto em que chegou a devassidão moral e a certeza da impunidade que permeia, hoje em dia, o ambiente parlamentar brasileiro. Enquanto isso, a alma da nação brasileira chora, convulsivamente, clamando por justiça. Justiça, nada mais que justiça.

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