terça-feira, 5 de junho de 2007

O OLHAR DE VERÔNICA

Públio José – jornalista
(publiojose@digizap.com.br)

Os jornais previram e, de fato, foi o que se viu. O auditório do Senado Federal lotado em plena segunda-feira, fato realmente admirável, registrado pela crônica política por todo o Brasil. Dias antes, o presidente do órgão, senador Renan Calheiros, ao telefone, mantivera contato com todos (ou quase todos) os senadores, mesmo os de partidos de oposição, instando-os a se fazerem presentes à seção na qual se defenderia das acusações que a revista Veja lhe fizera, de receber doações ilegais da construtora Mendes Junior. Afirmava, em tais contatos, está devidamente documentado para provar sua inocência no caso, além de está em condições, também dizia, de colocar, de uma vez por todas, ponto final na questão. Político bem sucedido, e bom marqueteiro, como demonstrado em vários episódios, Renan soube “enfeitar o pavão” de tal maneira que a presença em plenário foi além das expectativas.
\u003c/span\>\u003c/b\>\u003c/p\>\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0pt;text-align:justify\"\>\u003cb\>\u003cspan style\u003d\"font-size:12pt\"\>\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\>\u003cspan\> \n\u003c/span\>Estavam todos lá – inclusive os cardeais mais reverenciados dos grandes \npartidos. Reinava no auditório um ar solene. E o semblante dos parlamentares se \nafigurava extremamente circunspecto. Alguns olhavam para o senador Renan \nCalheiros com um acentuado sentimento de esperança, como se dissessem “vai, \nRenan, que a bola é tua!” Já outros parlamentares tinham no senador um político \nà beira do precipício, crendo que em mais um pouco de tempo sua reluzente \ncadeira presidencial caminharia célere para a vacância. De um lado ou de outro, \nindependente em qual bloco o parlamentar se situava, a expectativa era grande \npelo conteúdo do discurso de Sua Excelência. Nas galerias, igualmente, todos \nesperavam a sua fala com ansiedade, enquanto repórteres, cinegrafistas e demais \nprofissionais da Imprensa se acotovelavam em busca do detalhe que enriquecesse \nmais ainda suas matérias.\u003c/font\>\u003c/span\>\u003c/b\>\u003c/p\>\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0pt;text-align:justify\"\>\u003cb\>\u003cspan style\u003d\"font-size:12pt\"\>\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\>\u003cspan\> \n\u003c/span\>O cenário, portanto, estava pronto. Tudo, enfim, que se fizesse \nnecessário a uma proveitosa repercussão do discurso do senador fora \nprovidenciado. Entretanto, nenhum detalhe me chamou mais a atenção do que o \nsemblante de uma senhora vestido de preto, com ar mais solene ainda do que o dos \ndemais circunstantes, situada num lugar privilegiado do auditório. Seu nome? \nVerônica – a esposa do ilustre senador. Minha atenção fixou-se nela em virtude \nde sua expressão, de seu semblante que aparentemente nada dizia, mas que, na \nverdade, muito proclamava. Calada, com uma postura firme, Verônica não expressou \nnenhum gesto digno de nota durante a seção. A tudo ouvia, a tudo assistia sem \ndenotar nenhuma reação que chamasse a atenção sobre si. Entretanto, seu olhar, \ncarregado de silêncio, externava o verdadeiro turbilhão de sentimentos e \nsensações que habitavam seu interior.",1]
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Estavam todos lá – inclusive os cardeais mais reverenciados dos grandes partidos. Reinava no auditório um ar solene. E o semblante dos parlamentares se afigurava extremamente circunspecto. Alguns olhavam para o senador Renan Calheiros com um acentuado sentimento de esperança, como se dissessem “vai, Renan, que a bola é tua!” Já outros parlamentares tinham no senador um político à beira do precipício, crendo que em mais um pouco de tempo sua reluzente cadeira presidencial caminharia célere para a vacância. De um lado ou de outro, independente em qual bloco o parlamentar se situava, a expectativa era grande pelo conteúdo do discurso de Sua Excelência. Nas galerias, igualmente, todos esperavam a sua fala com ansiedade, enquanto repórteres, cinegrafistas e demais profissionais da Imprensa se acotovelavam em busca do detalhe que enriquecesse mais ainda suas matérias.
O cenário, portanto, estava pronto. Tudo, enfim, que se fizesse necessário a uma proveitosa repercussão do discurso do senador fora providenciado. Entretanto, nenhum detalhe me chamou mais a atenção do que o semblante de uma senhora vestido de preto, com ar mais solene ainda do que o dos demais circunstantes, situada num lugar privilegiado do auditório. Seu nome? Verônica – a esposa do ilustre senador. Minha atenção fixou-se nela em virtude de sua expressão, de seu semblante que aparentemente nada dizia, mas que, na verdade, muito proclamava. Calada, com uma postura firme, Verônica não expressou nenhum gesto digno de nota durante a seção. A tudo ouvia, a tudo assistia sem denotar nenhuma reação que chamasse a atenção sobre si. Entretanto, seu olhar, carregado de silêncio, externava o verdadeiro turbilhão de sentimentos e sensações que habitavam seu interior.
Dos presentes era a mais ausente. Momentos houve em que seu olhar movia-se de um lado para outro, vago, sem se fixar em nenhum ponto em \nparticular, como se estivesse se perguntando, interiormente, o que ali fazia. \nOuvir o marido confessar o adultério cometido diante de um país inteiro não era \nincumbência das mais fáceis de administrar. Vê-lo antes respeitado e, agora, \njogado ao tiroteio de denúncias difíceis de contestar também não era algo que \ntivesse pretendido para a sua vida – nem tão pouco para a dele. Nas fotos \nmostradas pelos jornais no dia seguinte a expressão de Verônica continha o mesmo \nar de apatia, de dolorosa ausência. E naquelas que figurou ao lado do marido o \nolhar reluzia a sensação de está vivendo um episódio em sua vida que jamais \nimaginara acontecer. Em momento algum se viu em Verônica um olhar de \nsolidariedade ao senador. Somente de tristeza. Contida. Mas de profunda Roman\
Dos presentes era a mais ausente. Momentos houve em que seu olhar movia-se de um lado para outro, vago, sem se fixar em nenhum ponto em particular, como se estivesse se perguntando, interiormente, o que ali fazia. Ouvir o marido confessar o adultério cometido diante de um país inteiro não era incumbência das mais fáceis de administrar. Vê-lo antes respeitado e, agora, jogado ao tiroteio de denúncias difíceis de contestar também não era algo que tivesse pretendido para a sua vida – nem tão pouco para a dele. Nas fotos mostradas pelos jornais no dia seguinte a expressão de Verônica continha o mesmo ar de apatia, de dolorosa ausência. E naquelas que figurou ao lado do marido o olhar reluzia a sensação de está vivendo um episódio em sua vida que jamais imaginara acontecer. Em momento algum se viu em Verônica um olhar de solidariedade ao senador. Somente de tristeza. Contida. Mas de profunda tristeza.

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