sexta-feira, 8 de junho de 2007

G8 encerra cúpula hoje sem acordo sobre Kosovo


Ao final da cúpula do G8 (sete países mais industrializados mais a Rússia) nesta sexta-feira, a chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou que o único tema sobre o qual não foi alcançado um consenso é a questão da independência de Kosovo. A polêmica discussão sobre a Província sérvia separatista colocou de lados opostos a Rússia, aliada de Belgrado, e os outros parceiros do bloco.
A ONU estuda oferecer uma independência tutelada à Província, o que é rejeitado pelo Kremlin por abrir o caminho para a independência total no futuro. O plano da ONU prevê que Kosovo deveria ter sua própria Constituição, hino e bandeira, e que a Província pode pedir para ser membro de organizações internacionais --o que daria efetivamente a ela um status de governo soberano.
Editoria de Arte/Folha Online
Kosovo tem sido um protetorado internacional desde a guerra de 1998-1999 entre tropas sérvias e descendentes de albaneses lutando por independência. O governo em Belgrado ofereceu ampla autonomia à Província, mas rejeita uma separação total como exigida pelos kosovares albaneses. A Sérvia considera Kosovo como seu território histórico, além do berço original do Estado e da religião sérvios.
O presidente francês, Nicolas Sarkozy, lamentou hoje que não tenha sido alcançado nenhum progresso a respeito de Kosovo. Sarkozy tentou sem sucesso convencer a Rússia a reconhecer que a separação entre Kosovo e a Sérvia é "inevitável". Uma proposta de adiar por seis meses a votação sobre o plano no Conselho de Segurança da ONU também foi rechaçada pelo Kremlin.
A falta de acordo já era prevista. O presidente russo, Vladimir Putin, deixou recentemente patente sua postura ao negar que o caso do Kosovo seja diferente dos de outras regiões com movimentos separatistas, como a Abkházia, a Ossétia do Sul, a Transnístria e o País Basco --para os quais não há pressão internacional a favor de independência. "Não entendemos por que teríamos que apoiar uma série de princípios em uma parte da Europa e outra em outras regiões do continente", disse Putin.
Acordos firmados
Em seu discurso de encerramento da cúpula, que se realizou durante três dias em Heiligendamm, na Alemanha, Merkel comemorou os acordos firmados sobre medidas para conter o aquecimento global e as negociações para aplacar a tensão entre Estados Unidos e Rússia.
O acordo firmado ontem sobre medidas para deter o avanço das mudanças climáticas foi considerado um "grande êxito" por Merkel e outros líderes do G8, como Sarkozy e o premiê britânico, Tony Blair.
AP
Angela Merkel (de verde) afirmou que novo acordo sobre clima é "grande êxito"
Apesar disso da oratória, na prática o acordo não fixou a obrigatoriedade de redução pela metade das emissões de gases do efeito estufa até 2050, como pretendia Merkel. Sob pressão dos EUA, o texto do acordo diz apenas que os países "considerarão seriamente" estes valores de redução.
O conselheiro de segurança nacional americano Stephen Hadley afirmou hoje que o acordo não traz nenhum limite de cumprimento obrigatório. Para ele, há diferentes propostas de "objetivos a longo prazo" que são desejáveis, mas o G8 "não escolheu uma meta" entre essas propostas.
Ainda assim, o acordo traz avanços. O texto mostra que há um novo impulso para aumentar os objetivos do Protocolo de Kyoto para além de 2012. 'Merkel pode ser prática e pragmática, e acho que ela alcançou mais do que esperava', disse Hans-Joachim Schellnhumber, líder de um instituto de pesquisa sobre clima alemão e conselheiro da chanceler.
EUA x Rússia
Após meses de tensão, a cúpula do G8 trouxe uma nova esperança para a disputa entre EUA e Rússia a respeito do sistema de defesa americano que a Casa Branca quer implementar no Leste Europeu.
O plano enfrenta dura resistência da Rússia, que ameaçou retaliações caso os EUA levem adiante a implantação do sistema.
Gerald Herbert/AP
Bush (ao fundo) e Putin estudam cooperação em segurança
Ontem, porém, Putin apresentou uma contraproposta inesperada para substituir o plano: ele propôs a Bush que os dois países utilizem conjuntamente o radar de Gabalá (no Azerbaijão), que permite detectar a trajetória de eventuais mísseis disparados a partir do Irã ou do Iraque.
"Podemos utilizar o radar em regime automático e todo o sistema protegeria não apenas uma parte do continente, mas toda a Europa, sem exceções", afirmou Putin à imprensa russa, segundo a agência Interfax. "Isso excluiria a ameaça de que restos de foguetes caiam sobre o território dos países europeus", completou.
Bush disse após a reunião com Putin ontem que eles concordaram em manter o diálogo estratégico sobre formas de cooperação. Ainda nesta sexta-feira, ele deverá viajar para a Polônia para discutir o escudo antimísseis, que no plano original seria implantado neste país e na República Tcheca.
África
Antes de encerrar a reunião na Alemanha, os países do G8 renovaram o compromisso de destinar US$ 60 bilhões em ajuda à África, especialmente em sua luta contra doenças como a Aids e a malária.
"Nós cumpriremos nossas promessas, mas também esperamos que se possa controlar o que os países africanos farão com o dinheiro", afirmou Merkel, que falou à imprensa hoje ao lado do presidente de Gana e da União Africana, John A. Kufour.
Merkel enfatizou que a ajuda será condicionada às provas de boa governança dos países receptores. "Sem um bom governo, todas as outras reformas terão impacto limitado", afirmou um comunicado emitido pelo G8 sobre a África.
O compromisso irritou membros de organizações humanitárias que acompanhavam as evoluções da cúpula. De acordo com os críticos, a soma de US$ 60 bilhões acordada não cumpre um acordo anterior, firmado em 2005 na Escócia, que previa dobrar a ajuda humanitária à África.
"Estou exasperado", disse o ativista e músico Bono Vox. "Acho que usaram deliberadamente uma linguagem imprecisa. Estão deliberadamente nos enganando", completou ele.
O acordo da cúpula não especifica datas para a liberação do montante e diz apenas que o dinheiro será enviado "durante os próximos anos".
O presidente dos EUA, George W. Bush, não compareceu a algumas sessões da cúpula sobre a África devido a um mal-estar estomacal na manhã de hoje, segundo seus assessores. Ele se recuperou após atendimento médico e foi a outras reuniões.

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