sexta-feira, 25 de maio de 2007

Novo transgênico combate superervas daninhas

Novo transgênico combate superervas daninhas Um novo tipo de planta geneticamente modificada pode retardar o apocalipse profetizado para o mercado de transgênicos na agricultura: as ervas daninhas resistentes ao herbicida glifosato, um dos mais usados.Produtos de engenharia genética como a soja Roundup Ready podem receber doses generosas do herbicida glifosato (nome comercial Roundup) e manter sua saúde, enquanto as ervas daninhas ao redor morrem. O problema é que, aos poucos, os vegetais indesejados que infestam as fazendas também estão ganhando resistência ao herbicida. A exemplo do que acontece com os antibióticos, é só uma questão de tempo até que "superervas daninhas" imunes ao glifosato --que já existem-- estraguem a festa das empresas de biotecnologia.Um estudo publicado hoje por cientistas da Universidade do Nebraska (EUA), porém, apresenta uma solução: criar uma outra planta transgênica, resistente a outro herbicida. A saída pode não parecer muito criativa, mas deve ganhar um bom espaço entre fazendeiros, já que as novas plantas são imunes ao dicamba, um herbicida barato e relativamente inofensivo para o ambiente.Seria, então, o fim do monopólio da multinacional americana Monsanto sobre o crescente mercado da soja transgênica? Não agora."A tecnologia foi patenteada pela Universidade do Nebraska e já foi licenciada para a Monsanto para comercialização", disse à Folha o bioquímico Donald Weeks, chefe da equipe que criou as plantas resistentes ao dicamba. "Nós desenvolvemos provas de princípio para soja e para tomate e depois abordamos algumas empresas em busca de um parceiro para comercializá-las. A universidade decidiu que a Monsanto seria a melhor opção."Weeks e seus colegas descrevem seu invento hoje em estudo na revista "Science" (www.sciencemag.org). Para criar as plantas resistentes ao dicamba, o grupo fez uma devassa no DNA de uma bactéria de solo naturalmente imune à substância até encontrar o gene responsável pela característica. Depois disso, usou tecnologia já existente para inserir o gene nas plantas."Não é um trabalho trivial", diz Marcelo Menossi Teixeira, geneticista da Unicamp que leu o estudo de Weeks. Localizar genes como o usado no estudo é extremamente trabalhoso. Em geral, é algo feito por equipes grandes em prazos longos --e com muito dinheiro. Weeks diz ter levado 12 anos para desenvolver suas plantas, mas só recebeu ajuda da Monsanto em 2005, depois do acordo.Gene sob controlePara Teixeira, um dos maiores méritos dos americanos foi ter conseguido inserir o gene de resistência no cloroplasto das plantas, uma estrutura que fica fora do núcleo das células, que guarda a maior parte do DNA. Dessa forma, não há risco de a planta transgênica fertilizar com seu pólen outras plantas e espalhar o gene pela natureza de forma descontrolada.O uso de mais de um tipo de herbicida --hoje o glifosato domina o mercado-- dificulta o aparecimento de superervas daninhas. "Essa variação deveria ser feita sempre, não importa se o agricultor usa transgênico ou não", diz Teixeira.A compra da tecnologia pela Monsanto, contudo, pode ser mesmo um lance milionário, já que a aposta é que os produtores de soja optem pela dobradinha dicamba-glifosato. "Se usados em combinação, o dicamba pode ajudar a prevenir o surgimento de novas ervas resistentes ao Roundup", diz Weeks.O glifosato, quando surgiu no mercado, já trouxe um benefício ambiental por substituir herbicidas mais tóxicos, mas o dicamba é ainda mais limpo."Uma das coisas legais sobre a abordagem que desenvolvemos --importar um gene que produz uma enzima que inativa o dicamba dentro da planta-- é que em teoria ela pode ser usada com qualquer herbicida", afirma o pesquisador. "Vamos continuar a fazer pesquisa explorando o uso possível dessa tecnologia em outras plantas."TemorErvas daninhas imunes ao glifosato ainda não são problema no Brasil, mas já assustam alguns países. Nos últimos dez anos, o número de espécies desse tipo nos EUA subiu de uma para 12. "Em três ou quatro anos, será um dos piores problemas" disse à revista "Science" Stephen Poles, da Iniciativa de Resistência a Herbicidas de Perth, na Austrália.

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